Quinta, 22 de Outubro de 2026
25°C 26°C
Salvador, BA
Publicidade

Muito antes da morte: como a produção de evidências busca a prevenção do feminicídio no Distrito Federal

Dados produzidos pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal evidenciam que existe ampla violência invisibilizada e naturalizada, tanto pelas vítimas quanto pela sociedade, constituindo ambiente propício para a escalada da violência letal. por Daniele de Sousa Alcântara

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.329
05/07/2026 às 11h48 Atualizada em 05/07/2026 às 11h53
Muito antes da morte: como a produção de evidências busca a prevenção do feminicídio no Distrito Federal

Daniele de Sousa Alcântara

Doutora em Sociologia pela UnB. Pesquisadora do Psitrafem/UnB e Nevis/UnB. Major da PMDF. Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

01/07/2026 - Quando uma mulher é vítima de feminicídio, o Estado registra mais um crime consumado. Entretanto, o feminicídio raramente começa no momento da morte. Ele representa, na maioria das vezes, o desfecho de um processo contínuo de violência marcado por controle, ameaças, isolamento, agressões sucessivas e naturalização das desigualdades de gênero. O verdadeiro desafio das políticas públicas, portanto, não é apenas responder ao crime consumado, mas desenvolver capacidade institucional para identificar, compreender e interromper esse percurso antes que ele alcance seu resultado mais extremo.

Essa capacidade depende, antes de tudo, da produção permanente de informações qualificadas. Nesse contexto, a publicação da segunda edição do Anuário de Segurança Pública do Distrito Federal (SSPDF, 2026) representa um importante avanço para a consolidação de uma cultura de governança da informação na segurança pública. Além das estatísticas criminais, o Anuário organiza séries históricas, indicadores e análises capazes de transformar registros administrativos em conhecimento estratégico para gestores públicos, pesquisadores e sociedade. Em um cenário no qual decisões precisam ser cada vez mais orientadas por evidências, produzir informações confiáveis torna-se condição indispensável para prevenir a violência e avaliar políticas públicas.

No caso dos feminicídios, a segunda edição do Anuário evidencia que, embora o número absoluto de ocorrências apresente oscilações ao longo dos anos, permanecem relativamente constantes aspectos fundamentais do fenômeno, como o vínculo entre autor e vítima, a predominância dos crimes no ambiente doméstico e a existência de histórico prévio de violência. Esses padrões demonstram que o feminicídio dificilmente é um evento imprevisível. Ao contrário, costuma ser precedido por sinais que podem ser identificados quando diferentes instituições compartilham informações e desenvolvem capacidade analítica para compreender fatores de risco.

Contudo, compreender apenas o momento do crime não é suficiente. Pesquisa inédita conduzida pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF, 2026), que apresenta o panorama da violência contra a mulher no DF, revelou que 77,6% das mulheres entrevistadas relataram ter vivenciado alguma forma de violência ao longo da vida. Ainda mais preocupante é o fato de que muitas delas não reconhecem essas experiências como violência. Entre mulheres que afirmaram nunca ter sofrido agressões praticadas por parceiro íntimo, parcela expressiva descreveu situações objetivamente compatíveis com violência psicológica, moral, física, patrimonial ou sexual. Esses resultados evidenciam que existe uma ampla violência invisibilizada e naturalizada, tanto pelas vítimas quanto pela sociedade, constituindo um ambiente propício para a escalada da violência letal.

Os dados reforçam que prevenir feminicídios exige ampliar o olhar para além dos registros policiais. Pesquisas de vitimização, estudos de percepção social e indicadores de vulnerabilidade permitem compreender fenômenos que permanecem ocultos nas estatísticas criminais tradicionais. Em outras palavras, o feminicídio não nasce no boletim de ocorrência, mas em relações marcadas por sucessivas formas de violência que, muitas vezes, permanecem invisíveis às instituições públicas.

Outro aspecto inovador desenvolvido no Distrito Federal consiste na produção sistemática de estudos sobre os autores de feminicídio. Durante décadas, a literatura concentrou-se, legitimamente, na proteção às vítimas. Entretanto, compreender as trajetórias dos agressores também constitui uma estratégia essencial para a prevenção. Estudos da Câmara Técnica de Monitoramento de Homicídios e Feminicídios/SSPDF, aliados às pesquisas do IPEDF sobre masculinidades e percepções dos homens, demonstram que processos de socialização masculina, experiências familiares, concepções sobre papéis de gênero e formas de resolução de conflitos influenciam significativamente a construção das violências que culminam no feminicídio. Compreender esses fatores não significa relativizar responsabilidades individuais, mas ampliar a capacidade do Estado de atuar preventivamente sobre fenômenos sociais complexos.

Essa perspectiva rompe com interpretações que reduzem o feminicídio a episódios isolados ou impulsivos. Ao contrário, evidencia que a violência letal contra mulheres resulta de processos cumulativos, sustentados por desigualdades de gênero, controle sobre a autonomia feminina e naturalização de práticas violentas nas relações afetivas. Quanto mais cedo esses processos forem identificados, maiores serão as possibilidades de intervenção.

Nesse cenário, o principal diferencial do Distrito Federal não está nos números, mas no método adotado para compreendê-los. Há um objetivo pela articulação entre estatísticas oficiais, produção científica, inteligência analítica e cooperação interinstitucional para políticas públicas orientadas por evidências e que possam ampliar significativamente a capacidade estatal de prevenir violências. Instrumentos permanentes de produção de conhecimento, como o Anuário de Segurança Pública do Distrito Federal, deixam de ser meras publicações estatísticas para assumirem papel estruturante na governança da segurança pública. Sua continuidade fortalece a transparência, aperfeiçoa a avaliação das políticas implementadas e consolida uma memória analítica indispensável para compreender a evolução dos fenômenos criminais e orientar decisões estratégicas.

Cada feminicídio representa uma tragédia irreparável para famílias e comunidades. Mas representa também uma oportunidade de aprendizado institucional. As evidências produzidas no Distrito Federal indicam que prevenir o feminicídio depende menos da capacidade de reagir após a morte e muito mais da capacidade de enxergar, por meio da informação qualificada e da integração entre instituições, a violência que permanece invisível muito antes dela acontecer.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.329

(*) Os textos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do Fonte Segura e são de responsabilidade de seu autor ou autores.

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 5 dias

Quem protege também precisa ser cuidado

Pesquisa identifica sinais relevantes de sofrimento psíquico e reforça a necessidade de prevenção e cuidado institucional permanente. por Luana Maria Lima Alves, Silvia dos Santos de Almeida e Alethea Maria Carolina Sales Bernardo

MÚLTIPLAS VOZES Há 5 dias

Menos registros, mais perguntas sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes

A queda inédita nos registros de estupro de vulnerável em 2025 suscita a questão: estamos diante de uma redução efetiva da violência ou de uma mudança na capacidade de identificá-la e denunciá-la?. por Luciana Temer*

MÚLTIPLAS VOZES Há 5 dias

Material de abuso sexual infantil: novas dinâmicas da violência no ambiente digital

A violência sexual contra crianças e adolescentes ganha novas dimensões no ambiente digital. Os microdados revelam a predominância de meninas entre as vítimas e a expressiva presença de adolescentes entre os autores. por Cauê Martins*

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Ladrões do Centro paulistano

Pesquisa exploratória sobre determinados crimes no centro da capital paulista identificou alguns padrões de comportamento de ladrões, traficantes e receptadores de bens roubados na área. por Guaracy Minga

Desaparecidas Há 1 semana

O aumento dos desaparecimentos e a urgência de respostas institucionais mais adequadas

O desaparecimento de pessoas continua sendo fenômeno de difícil compreensão, atravessado por diferentes causas e trajetórias. Enquanto os registros crescem, persistem lacunas na produção de informações, na articulação entre instituições e em uma legislação que ainda não contempla adequadamente essa diversidade. por Deise Nunes*

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
26°
Tempo limpo
Mín. 25° Máx. 26°
28° Sensação
19.15 km/h Vento
77% Umidade
99% (1.19mm) Chance chuva
05h04 Nascer do sol
17h32 Pôr do sol
Sexta
26° 25°
Sábado
27° 24°
Domingo
28° 24°
Segunda
28° 24°
Terça
27° 25°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL NA BAHIA

Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL EM PERNAMBUCO

Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL EM SERGIPE

```
Economia
Dólar
R$ 5,05 +0,07%
Euro
R$ 5,67 +0,11%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 435,290,96 -0,21%
Ibovespa
204,120,13 pts -1.15%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio