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Breve relato sobre as modalidades mais comuns de estelionato virtual

Difícil conversar com alguém que não tenha recebido inúmeras ligações de indivíduos, ou mesmo vozes digitais, que prenunciam um golpe. por Guaracy Mingardi

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO EDIÇÃO N.323
21/05/2026 às 23h30
Breve relato sobre as modalidades mais comuns de estelionato virtual

Guaracy Mingardi

Doutor em Ciência Política e associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Algumas vezes começa após um celular ser roubado ou furtado. Em outras, com um telefonema. Uma terceira modalidade desaba sobre o incauto de uma vez, sem aviso. As fraudes eletrônicas, que atingem cada vez mais pessoas, aos poucos estão provocando uma suspeita cada vez maior em torno do dinheiro digital, aquele movimentado sem que você veja sequer uma nota.

Claro que isso não é completa novidade. Desde que o papel-moeda passou a ser substituído pelos cartões, começaram a surgir algumas modalidades de fraude, desde o uso de cartões extraviados até o famoso sequestro-relâmpago, forma mais violenta, em que os ladrões “passeavam” com a vítima, sacando dinheiro nos caixas eletrônicos ao longo de uma noite, tirando o máximo permitido. Só depois soltavam a vítima, que tinha de correr atrás do prejuízo, provando aos bancos que tinha sido forçada a fazer as retiradas.

Hoje em dia, nos tempos em que as pessoas armazenam tudo nos celulares, uma das formas predominantes é, após o roubo dele, desbloquear primeiro o aparelho, depois abrir a conta digital e esvaziá-la tanto quanto possível. E isso é feito cada vez mais rapidamente.

O ladrão entrega em um ou dois minutos o celular para um cúmplice, ou diretamente para o receptador, que, por sua vez, deixa-o nas mãos de seu especialista, que faz o trabalho de decodificação e transfere o dinheiro para uma conta qualquer, que depois vai para outra e acaba nas mãos da quadrilha.

A questão aqui é que o primeiro elo da corrente, o ladrão, normalmente é o único que acaba preso, e, por incrível que pareça, é, por vezes, até mesmo condenado! Algumas vezes o receptador também dança. Existem vários casos registrados de alguns que foram detidos na posse de centenas de aparelhos. Já o técnico, quando é preso, acaba pagando como apenas mais um do bando, possivelmente pegando pena irrisória.

O segundo tipo, o das fraudes por telefone, é o mais comum. É difícil conversar com alguém que não tenha recebido inúmeras ligações de indivíduos, ou mesmo vozes digitais, que prenunciam um golpe. O normal é uma fala inicial afirmando que se trata de uma ligação do banco “tal”, avisando que houve tentativa de saque irregular na sua conta, ou oferecendo alguma vantagem econômica, coisas do tipo. Se a vítima se interessa, aos poucos o meliante vai extraindo informações que acabam por dar condições para que a quadrilha entre na conta, ou mesmo obter dinheiro por meio de uma transferência voluntária. Acreditem ou não, existem vários casos registrados de pessoas, principalmente idosos, que caíram nesse golpe. Alguns a custo revelam o ocorrido, normalmente apenas para os filhos ou pessoas próximas, portanto o número pode ser muito maior do que pensamos.

Os operadores mais importantes nesse tipo de golpe são pessoas com conhecimento do sistema bancário, que sabem como manejar as informações. Outra peça fundamental é o vigarista que induz o incauto a fornecer seus dados.

Quanto à terceira modalidade, aquela na qual a vítima não enxerga sinal de ser um alvo até verificar sua conta esvaziada, ocorre com o simples furto de informações bancárias. Seja por vazamentos de funcionários dessas instituições ou de alguma compra que fez pela internet, na qual tem de registrar o número do cartão, a data de validade, seu nome, o código de segurança, as vezes até o CPF. Imagine, o incauto compra uma simples pizza, alguém consegue os dados e faz várias compras no mesmo dia, normalmente itens de pequeno valor, para não chamar a atenção da segurança bancária. Dali a um dia ou dois, quando a vítima percebe, as compras já foram retiradas ou entregues em algum endereço que ninguém vai investigar. Caso se inicie investigação, os moradores, quando houver, negarão que tenham recebido algo. E a investigação muitas vezes para por aí.

Este texto traz descrição simplificada de um fenômeno corriqueiro. Existem armações ainda mais complexas, mas na maioria dos casos não são sequer necessárias. Como todo punguista sabe, a segurança repousa na simplicidade e no fato de que as vítimas tardam em saber do ocorrido, além de terem vergonha de denunciar.

A população em geral sempre reclama de coisas assim, mas as únicas atitudes que pode tomar são a cautela e o registro da ocorrência. O controle cabe às instituições que lidam com o crime, como as polícias e o Ministério Público. O terceiro pilar do controle desses ilícitos teria de ser o banco. Seja ele qual for, é encarregado de manter a salvo o dinheiro do cliente. Como fazer isso é outra história, que vamos desenvolver em outro artigo.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO EDIÇÃO N.323

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