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NARCOTERRORISMO: segunda grande crise da Política de Guerras às Drogas

Único país no mundo que tem fronteira com os maiores produtores de cocaína e com a mais extensa costa marítima de conexão internacional, o Brasil não é um mero entreposto, mas o setor logístico mais estratégico no mercado global de drogas. por Joana das Flores

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.315
30/03/2026 às 10h38
NARCOTERRORISMO: segunda grande crise da Política de Guerras às Drogas

Joana das Flores

Doutora pela PUC/RS; professora na Universidade Federal de São Paulo. Integrante das redes CLACSO, CLAA e AUGM.

A tentativa de Donald Trump de sancionar como organizações narcoterroristas o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) desvenda ao menos três fenômenos intrínsecos. O primeiro é a crise[1] instaurada com a política de guerra às drogas da era Ronald Reagan (1981-1989), cuja função central era a criação de uma guerra interna nos países produtores (Colômbia, México, Bolívia). Entre os anos de 1970 até 1990, a centralidade dessa política norte-americana estava na Colômbia e no México; o Brasil não tinha relevância alguma no mercado internacional de drogas. Nesse período, as duas maiores organizações do país atualmente estavam em tempos e processos distintos. CV se capilarizava na cidade do Rio de Janeiro e concentrava-se na venda varejista de maconha e na prática de roubos, assaltos, sequestros. Já o PCC, no início dos anos 1990, nascia no sistema prisional paulista.

A entrada de cocaína nessa época no Brasil era escassa e cara, e as relações comerciais eram reguladas – não sem conflitos – por México e Colômbia. A rota principal era la ruta Central, que compreende os países da América Central. Com a Revolução Cubana, em 1959, la ruta Coca-Libre deixa de ser uma via, e só volta a ter centralidade a partir de 2004, com a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah). É nessa época que o cenário brasileiro no mercado global de drogas passa pela primeira e significativa mudança. A atuação do Brasil nessa missão abre também conexões de poder para articulações do crime organizado. Durante o período da missão, observou-se que redes criminosas passaram a explorar fluxos migratórios e rotas comerciais entre o Caribe, América Central e América do Sul, facilitando o tráfico de drogas, armas e pessoas.

O segundo fenômeno está em curso sob comando de Trump. De forma diversa do que ocorria nos tempos do “diga não às drogas”, agora temos a segunda grande crise, não apenas mais agressiva e intervencionista, mas também geopolítica. Trump busca respaldo nas sanções que historicamente foram usadas por seus antecessores. Joe Biden (2021-2025), por exemplo, sancionou o PCC como uma organização criminosa, o que em termos internacionais a difere substancialmente do Comando Vermelho.

Ainda que Trump retome o discurso de outrora, há novos elementos, entre os quais estão as disputas marítimas. Se essas foram protagonistas durante os séculos XV e XVI, com as Grandes Navegações, na globalização neoliberal as crises são marcadas por disputas de poder e dominação dessas rotas comerciais e áreas estratégicas. Nomear CV e PCC como organizações narcoterroristas implica mais poderes, que ultrapassam os das ações adotadas nos anos de 1980 por Reagan.

O terceiro fenômeno revela que, na primeira crise da política de guerra às drogas, o mercado estava em processo de internacionalização, e toda a base financeira recorria unicamente ao sistema de lavagem de dinheiro via paraísos fiscais ou instituição financeira americana. Trump observou nas últimas décadas esse mercado prosperar em produção, consumo, estrutura financeira e tecnológica.

 

Fonte: UNDOC (2025)

Nessa economia subterrânea, não foram apenas os submarinos que se expandiram, a ascensão de organizações criminosas fora do eixo histórico de produção, financeirização, rotas marítimas e forte política de internacionalização deu ao mercado de drogas uma centralidade comercial jamais vista, e aos Estados Unidos (EUA) apenas a soberania de país consumidor. Essas novas organizações não aprimoraram apenas o mercado de exportação e grau de pureza da cocaína, mas construíram estratégias próprias de investimentos, branqueamento de capitais e uso de criptoativos.

É nessa virada de abertura comercial do século XXI que o Brasil assume o lugar de costeiro, ou la ruta del gran Atlántico. O Brasil é o único país no mundo que tem fronteira com os maiores produtores de cocaína e possui a maior costa marítima de conexão internacional. O país não é um mero entreposto, mas o setor logístico mais estratégico no mercado global de drogas. Enquanto o CV atua com rotas nas áreas de fronteiras do país, o PCC não só tem áreas centrais, mas fez do encarceramento em massa a sua maior política de internacionalização. A organização está presente em mais de 35 países. Em mapa da UNDOC (2025), é possível aferir os fluxos de tráfico de cocaína saindo das Américas em apreensões relatadas entre 2023-2024 e o papel logístico do Brasil.

 

Fonte: UNDOC (2025)

Em relação ao consumo, os dados mais recentes do Relatório da UNDOC (2025) revelam que cerca de 296 milhões de pessoas consumiram drogas ilícitas em 2023, representando aproximadamente 5,8% da população mundial adulta. Já o uso de cocaína atingiu novos recordes nesse mesmo ano: cresceu de 17 milhões de usuários em 2013 para 25 milhões em 2023. A produção ilegal disparou para 3.708 toneladas, quase 34% a mais do que em 2022. As apreensões globais de cocaína atingiram um recorde de 2.275 toneladas – um aumento de 68% em relação ao período 2019-2023. Não há, portanto, na série histórica analisada desde o século XVI, no Peru, queda expressiva na produção e consumo de cocaína.

As implicações de uma sanção estadunidense dessa natureza sobre o Brasil – colocando PCC e CV como organizações narcoterroristas –, longe de atuar contra o crime organizado, visa à tomada da região no tripé produção-exportação-consumo. Bombardeios e sanções aos países vizinhos, cenário em que Cuba é asfixiada, dizem muito sobre as atuais intenções do governo de Trump. Passados quase meio século da primeira guerra às drogas, a América Latina não só integrou o mercado de cocaína, mas passou a atuar (não sem conflitos) em aliança comercial com outras organizações criminosas internacionais. Nesse contexto de crise, os EUA investem no que sempre fizeram: guerra. Ocorre que, do outro lado, nunca existiu paz.

Referências

[1] Segundo Immanuel Wallerstein, refere-se a momentos em que o sistema-mundo capitalista enfrenta desequilíbrios profundos e múltiplos, tornando-se incapaz de se reproduzir de forma estável.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.315

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