
Se você é um leitor atento de noticiários ou faz parte do público deles em rádio ou TV, depara-se diariamente com um grupo sempre dos mesmos políticos e familiares do ex-presidente justamente condenado a 27 anos e 3 meses de cadeia simplesmente remoendo o mesmo mimimi sobre as condições ora impostas a esse presidiário.
Se você for desavisado talvez tenha a impressão de que ele se hospedou em uma colônia de férias e não lhe estão proporcionando o conforto anunciado na publicidade ou previsto no contrato.
Jamais em um estabelecimento em que foi recolhido para cumprir uma pena por ter cometido crimes da maior gravidade e liderado um imenso grupo de seguidores para que o acompanhassem.
Essa lenga-lenga é invariavelmente acompanhada de sérias denúncias contra a postura do ministro Alexandre de Moraes, responsável no STF por julgar quem cometeu todos os preparativos para que o Brasil sofresse um golpe de estado e o presidente eleito simplesmente não assumisse.
Greves de caminhoneiros, tentativa de explosão de uma bomba no aeroporto de Brasília, uma enorme movimentação que visava impedir a posse do novo presidente, quando alguns ônibus e cerca de dez carros foram incendiados, postos de gasolina sofrendo igualmente esse risco, a sede da Polícia Federal quase sendo invadida. Milhares de pessoas acampadas diante de quarteis. No final, a depredação dos prédios das sedes dos Três Poderes: STF, Congresso Nacional e Palácio do Planalto. Enquanto isso, viaturas da polícia vandalizadas, policiais agredidos, inclusive com o risco de vida, e o centro político de Brasília transformado em um verdadeiro inferno. Algo que fez a baderna contra o Capitólio, nos Estados Unidos, um ano antes quase que parecer uma mera bagunça de adolescentes.
Depois de criteriosa investigação pela Polícia Federal, sob acompanhamento da Procuradoria Geral da República, os responsáveis foram julgados, em processos em que tiveram amplo direito de defesa e até transmissão pública das sessões, sendo afinal condenados, nos exatos termos do Código Penal. Entre esses condenados, como não podia deixar de ser, o líder de todo o movimento sedicioso. Deverá cumprir pena de 27 anos e três meses.
Eu nunca vi um "presidiário comum" com tanto privilégio.
Reiterados exames e tratamento com médico particular e em hospital de luxo?! Visita da esposa e de filhos a qualquer hora e sem limite de tempo? Quarto privativo e com 12 metros? Ar condicionado? E por aí vai.
É só dar uma espiada na Papuda ou em qualquer outro presídio do Brasil: Pedrinhas (Maranhão), Bangu (Rio), Carandiru (São Paulo), Mata Escura (Salvador), para citar alguns exemplos.
E vale lembrar que neles estão presidiários que cometeram crimes comuns. Nenhum deles tentou dar golpe de Estado ou matar o presidente, o vice ou ministro do Supremo.
Atento ao cumprimento da pena pelo responsável principal por tão terríveis crimes, três coisas devem chamar especial atenção.
Uma é a insistência na repetição daquilo que é repetidamente apontado como "desconforto" e em períodos de atenção à problemas de saúde, inclusive com interrupção da permanência na cela, com transferência para luxuoso estabelecimento hospitalar de Brasília.
A segunda é a impressionante paciência com que todos esses pleitos são atendidos pelo ministro Alexandre de Moraes. Quase todos eles poderiam ser atendidos pela equipe médica da Polícia Federal. Alguns não requereriam mais que um auxiliar de enfermagem, como o mais recente, uma leve pancada na cabeça.
A última é que a repetição é tão grande que talvez os dias de atenção médica já sejam equivalentes aos 50 dias de estrito cumprimento de pena. Para não falar dos quase quatro meses em "prisão domiciliar", em mansão de luxo, alugada com recursos públicos.
A família e o tal grupelho de políticos se queixam do alegado rigor do ministro Alexandre de Moraes. E a sociedade começa a estranhar o contrário, tanta liberalidade, questionando quando é que o tal criminoso vai passar a efetivamente cumprir a sua pena.
(*) Fernando Tolentino de Souza Vieira
Administrador público (UFBA) Jornalista (CEUB) Ex Diretor Geral da Imprensa Nacional nos governos de Lula e Dilma (2003- 2015).
E-mail: tolentino.vieira@gmail.com

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