
A Câmara dos Deputados abandonou sua função constitucional e passou a operar como um sindicato de interesses escusos, organizado para blindar privilégios, negociar poder e legislar em causa própria, mesmo que isso signifique trair o bem comum e os objetivos da Constituição. por LISDEILI NOBRE
Interesse do povo: o que é isso? Em algum ponto do caminho, a Câmara dos Deputados desistiu de suas funções constitucionais. Não legisla mais para o interesse público, não fiscaliza em nome da sociedade e tampouco representa a pluralidade do país real. Funciona, hoje, como um sindicato dos interesses escusos de deputados federais, organizado para proteger privilégios, garantir ganhos pessoais e blindar seus próprios membros. Vale tudo. Absolutamente tudo.
Chamam de Casa do Povo, mas o povo anda do lado de fora, do outro lado da porta giratória, tentando entender em que momento a Câmara dos Deputados deixou de ser Parlamento e virou sindicato de si mesma. Sindicato forte, organizado, coeso — não para defender o bem comum, mas para proteger salários, mandatos, privilégios e o eterno projeto de reeleição.
Enquanto a cidade dorme, as madrugadas ganham vida. É nesse horário que os ratos andam, dizem. E não é metáfora gratuita. Projetos de anistia seletiva, PECs de blindagem e reformas de dosimetria penal surgem na penumbra, votados a toque de caixa, longe da luz do dia e da vigilância popular. Nada ali dialoga com os objetivos fundamentais da Constituição. Não há plano para reduzir desigualdades, fortalecer direitos ou ampliar cidadania. Há apenas cálculo.
A Câmara se organiza como quem representa uma categoria profissional muito específica: deputados defendendo deputados. Atuando em bloco, negociam cargos, emendas, favores. Ideologias? Verdades científicas? Isso fica para os discursos de campanha. Na prática, o que importa é manter o poder concentrado nas mãos de uma oligarquia que já não sente pudor algum em trocar princípios por conveniência.
As negociações não são políticas; são comerciais. Compra-se apoio, vende-se silêncio. Mobiliza-se pela mentira, pela fake news, pelo medo fabricado. O interesse próprio veste a fantasia do interesse nacional e desfila sem constrangimento.
Do lado de fora, mulheres seguem ocupando filas de hospitais, salas de aula precárias, transportes lotados. Mulheres que sustentam a vida pública sem jamais serem prioridade dela. São elas que sentem primeiro o impacto dessas decisões noturnas — porque quando o Estado falha, o cuidado recai, quase sempre, sobre seus ombros.
E assim seguimos: um Parlamento que se fecha em si mesmo, uma democracia tratada como negócio, e o povo — especialmente as mulheres — reduzido a plateia. Interesse do povo? Parece pergunta retórica. Mas não deveria ser.
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