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A Operação Carbono Oculto e as novas fronteiras do crime organizado

É possível enfrentar organizações criminosas poderosas sem violência voltada a comunidades pobres. Seguir o dinheiro e os produtos mostrou-se um caminho mais eficaz, inteligente e promissor do que insistir apenas no modelo tradicional de confronto armado. por Eduardo Pazinato e Nivio Nascimento

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.292
29/09/2025 às 11h59 Atualizada em 29/09/2025 às 12h07
A Operação Carbono Oculto e as novas fronteiras do crime organizado

A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, foi um divisor de águas no enfrentamento ao crime organizado no Brasil. Ela foi a junção de três grandes operações anteriores, agora coordenadas sob a lógica de integração entre Polícia Federal, Receita Federal, COAF, Ministérios Públicos e órgãos estaduais. O esforço mobilizou 1.400 agentes, cumpriu 200 mandados contra 350 pessoas físicas e jurídicas em dez estados e revelou esquemas bilionários no setor de combustíveis. Mais do que o resultado imediato, a operação demonstrou o potencial de uma resposta de Estado articulada, baseada em inteligência e cooperação, sem a necessidade de disparar um único tiro.

Os números impressionam. Apenas uma das fintechs investigadas, atuando como verdadeiro “banco paralelo”, movimentou R$ 46 bilhões em cinco anos. Estima-se ainda que 40 fundos de investimento tenham protegido ativos ilícitos de R$ 30 bilhões. Esses valores estavam dentro das estimativas do estudo “Follow the Products”, desenvolvido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), mas reforçam um alerta: esses mercados seguem subestimados. Se uma única operação já revelou cifras dessa magnitude, o real volume pode ser muito maior. A baixa qualidade dos dados disponíveis confirma a urgência de investir em novas metodologias de medição, rastreamento e cruzamento de informações para compreender o alcance econômico do crime organizado.

O estudo “Follow the Products” analisou inicialmente quatro setores — combustíveis, bebidas, ouro e tabaco — e estimou que juntos movimentam R$ 146,8 bilhões anuais sob influência criminosa, quase dez vezes mais do que a receita anual do tráfico de cocaína. A Carbono Oculto validou esse diagnóstico, mas também expôs seus limites. O ecossistema criminal brasileiro mudou profundamente na última década. As organizações não se restringem a esses mercados: hoje exploram fraudes digitais, comércio de celulares, apostas esportivas e pirataria, entre outros setores de alta liquidez e baixa rastreabilidade. Esse cenário exige capacidade instalada para que órgãos de segurança, fiscalização, regulação e justiça atuem de forma conjunta e permanente, capazes de acompanhar as mutações constantes do crime econômico. A infiltração de facções, milícias e grupos de colarinho branco se espalha pela economia formal como um todo. A Faria Lima nunca esteve tão próxima dos presídios e das zonas vulneráveis — uma relação promíscua que escancara a interdependência entre o topo e a base da economia criminosa.

O crime organizado no Brasil opera hoje com lógica empresarial: diversifica produtos, gerencia riscos, expande participação de mercado e maximiza lucros. Nesse contexto, as fronteiras entre economias “lícitas” e “ilícitas” foram borradas por práticas de fraude, evasão fiscal, corrupção e violência que atravessam os dois mundos. Se o crime funciona como empresa, a resposta do Estado precisa ser igualmente estratégica, articulando inteligência financeira, rastreabilidade de produtos e regulação efetiva para reduzir oportunidades de infiltração e descapitalizar as redes criminosas.

Apesar de seu ineditismo, a Carbono Oculto também mostrou os limites do atual modelo. Grande parte do enfrentamento ao crime organizado no Brasil ainda é marcada por ações fragmentadas, operações episódicas e pouca integração entre níveis federativos e setores estratégicos — segurança pública, sistema financeiro e tributação. É preciso avançar para um pacto nacional contra o crime econômico, capaz de unir agendas e superar divisões ideológicas. A rastreabilidade de produtos, a integração de dados e a cooperação entre Estado e setor privado podem ser esse terreno comum, no qual diferentes visões políticas convergem em torno da necessidade de proteger a economia formal e a democracia.

A Carbono Oculto também ensinou algo essencial: é possível enfrentar organizações criminosas poderosas sem violência policial em territórios vulneráveis, sem operações truculentas que atingem comunidades pobres. Seguir o dinheiro e os produtos mostrou-se um caminho mais eficaz, inteligente e promissor do que insistir apenas no modelo tradicional de confronto armado.

Se uma única operação integrada foi capaz de revelar cifras bilionárias e redes complexas sem disparar um tiro, fica evidente que estamos apenas diante da ponta do iceberg. O futuro do combate ao crime organizado depende de transformar esse episódio em política de Estado, criando mecanismos permanentes de rastreamento, inteligência e cooperação para proteger a economia formal, a livre concorrência e a legitimidade do Estado de Direito.

(*) Eduardo Pazinato - Advogado, Mestre em Direito (UFSC) e Doutor em Políticas Públicas (UFRGS). Coordenador Acadêmico da Nova Escola da Segurança Pública Municipal (NESP-M). Associado e Consultor Sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

(*) Nivio Nascimento - Antropólogo, Mestre e Doutor em Antropologia (UnB). Associado Sênior e Assessor Internacional do FBSP.

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