ARTICULISTAS Carregar feridos...
O fascismo está nu, mas não é engraçado
Se os apoiadores não abandonam o chefe, o contrário não pode ser dito, já que Bolsonaro não é de carregar feridos. Do espetáculo de “salve-se quem puder” e “cada um por si” que assistimos, teve de tudo.
14/06/2025 15h41 Atualizada há 7 meses
Por: Carlos Nascimento Fonte: por Carlos Zacarias de Sena Júnior (Professor do Departamento de História da UFBA)

Com suas vergonhas a mostra, desavergonhadamente, o fascismo desfilou suas bizarrices diante de ministros do STF e de quem mais quisesse assistir a transmissão ao vivo do início do julgamento no âmbito da Ação Penal 2668, que apura a tentativa de golpe de Estado, entre outros crimes. Em qualquer outra circunstância seria de se esperar que o festival de besteiras faria a popularidade do agitador fascista despencar.

No entanto, diante de tudo que vimos, frente ao fato de que Bolsonaro continua a atrair multidões, é difícil crer que alguma razoabilidade vá encostar nas consciências do séquito de apoiadores dispostos a tudo.

Se os apoiadores não abandonam o chefe, o contrário não pode ser dito, já que Bolsonaro não é de carregar feridos. Do espetáculo de “salve-se quem puder” e “cada um por si” que assistimos, teve de tudo. De almirante golpista posando de contrito cumpridor dos ritos militares, a general que prometeu ficar calado e quase se complica. Refiro-me às cenas protagonizadas por Almir Garnier e Augusto Heleno, que usufruindo do direito de ficar calado, optou por responder apenas ao seu advogado, e ainda assim, ao ser indagado se havia utilizado a Abin para produzir informações falsas sobre a eleição de 2022, respondeu: “De maneira nenhuma. Não havia clima. O clima da Abin era muito bom”, no que foi interrompido pelo defensor que lhe pediu que dissesse apenas “sim” ou “não”.

Os vícios do militarismo também se fizeram presentes na sessão da última terça, pois enquanto o general Heleno disfarçou a contrariedade da bronca de seu advogado com um sorriso amarelo, Paulo Sérgio Nogueira, ex-chefe da Defesa, dirigiu-se ao ministro Alexandre de Moraes chamando-o de “comandante” diversas vezes, em nítido ato-falho. Já com o seu jovem advogado, que “ousou” lhe dirigir perguntas, lançou uma reprimenda, como se tivesse lidando com um subordinado na caserna, provocando nítido desconforto. Braga Netto, preso preventivamente desde dezembro em cela especial na 1ª Divisão do Exército, mesmo com as regalias de cela climatizada, TV a cabo e comida do cassino dos oficiais, estava visivelmente mais magro.

Mas foi Bolsonaro, o chefe da quadrilha, quem tentou roubar a cena. À parte as evasivas e justificativas esfarrapadas sobre o golpismo que foram remetidas ao campo da personalidade; à parte os pedidos de desculpas dirigidos à Alexandre de Moraes sob o argumento de que exagerou na retórica; à parte do fato de que o ex-capitão chamou de “malucos” seus aliados que pediam golpe de Estado e AI-5, muitos dos quais, agora presos, o que se viu foi o agitador fascista tentando livrar a cara a todo custo.

Com efeito, entre posar como o inconveniente “tio do pavê” e o chefe fascista que pretendeu dar um golpe, o julgamento da AP 2668 vai produzir ainda muito espetáculo. Mas não se enganem, há mais terror e tragédia nessa história do que comédia.

Carlos Zacarias de Sena Júnior (Professor do Departamento de História da UFBA)

(Jornal A Tarde, Salvador, 13/06/2025)

Julgamento do plano de golpe: Almir Garnier depõe ao STF; veja |  CNN

Julgamento do plano de golpe: Augusto Heleno depõe ao STF