ARTICULISTAS JOGATINA DAS BETS
Bets e consequências
Melhor agir antes que a pandemia seja incontrolável. A sociedade tem de se mover. E o mundo da política, também. Com muito mais rapidez e seriedade.
05/05/2025 14h48 Atualizada há 9 meses
Por: Carlos Nascimento Fonte: por EMILIANO JOSÉ

O episódio Bruno Henrique, a envolver apostas nos Bets, deveria provocar uma discussão muito mais ampla. Sim, poderíamos nos perguntar por que um jogador milionário, salário próximo aos dois milhões mensais, envolve-se num jogo desses. A vertigem do cassino, talvez. É, cassino, porque o futebol, e não só no Brasil, transformou-se nisso, numa casa de apostas, a envolver milhões de pessoas em todo o mundo, numa epidemia devastadora. Nem se deve fazer qualquer acusação ao jogador, em favor da presunção da inocência, não obstante os indícios sejam muito fortes.

A sociedade brasileira deveria, ela toda, envolver-se nessa discussão. Pensar e exigir uma regulamentação rigorosa, destinada a conter o agravamento dessa pandemia. A jogatina das Bets atinge principalmente aos mais pobres e dentre os mais pobres, principalmente a juventude. Consegue afetar a economia, diminuir o consumo, especialmente de famílias mais carentes, ampliar a dívida de milhões de pessoas, num perigoso círculo vicioso, sem qualquer medida capaz de deter a continuidade dele.

O gasto em apostas dos mais pobres com bets, aqueles com renda familiar de até R$ 5.648 por mês, é quatro vezes maior, na proporção do orçamento comprometido, da fatia gasta com apostas pelas pessoas da chamada classe A, aquelas a receber mais de R$ 28.240. As apostas estão comprometendo até 20% do orçamento livre dos mais pobres. Mistura de ingenuidade com ambição. A ilusão do dinheiro fácil. Vertigem provocada pelo jogo. Jovens entre 18 e 34 anos, um percentual acima de 86%: os apostadores

Tais apostas chegam a afetar até a demanda de produtos essenciais, perturbar a dinâmica da economia de forma mais ampla. O dinheiro reservado a compras de varejo, a incluir alimentos, roupas, móveis, eletrônicos, produtos de beleza e medicamentos, entre tantos produtos, passaram de um pico de 63% a 57% em 2023.

Neste ano, 2023, brasileiros apostaram entre R$ 100 bilhões e R$ 120 bilhões, algo em torno de 1% do PIB. Nos EUA, a pátriado capitalismo, berço do cassino, apostas somam 0,4% do PIB. Podemos nos dar ao luxo de seguir nessa toada? O faturamento das casas de apostas nos EUA gira em torno de 7%. No Brasil, lucram praticamente o dobro, 13%.

Onde isso vai parar? Estamos falando de consequências econômico-sociais. E o lado devastador para a juventude? E o sofrimento inevitável para as famílias? Para as mães, para os pais? Irmãos? Irmãs?

Creio haver uma certa paralisia diante da gravidade do problema, do impacto para a saúde mental de milhões de pessoas, o avanço das dívidas de cada uma delas. E insisto: principalmente dos mais pobres. Melhor agir antes que a pandemia seja incontrolável. A sociedade tem de se mover. E o mundo da política, também. Com muito mais rapidez e seriedade.

Emiliano José

Jornalista e escritor

E-mail: emiljose@uol.com.br

(*) Publicado no Jornal A Tarde, edição de 05.05.2025.