Uma reflexão sobre trabalho, riqueza, cooperação e as novas formas de organizar a produção.
Durante muito tempo, a sociedade aprendeu a enxergar o mundo do trabalho a partir de uma divisão quase naturalizada: de um lado, o patrão; do outro, o empregado.
Um possui o capital e os meios de produção. O outro oferece sua força de trabalho.
Essa relação ganhou enorme importância com a Revolução Industrial, quando a produção passou a ser organizada em larga escala e se consolidou a separação entre os proprietários dos meios de produção e os trabalhadores. Naquele período, as condições de trabalho eram extremamente duras, e a desigualdade entre as partes era gigantesca. Foi também nesse contexto que surgiram experiências de organização coletiva dos trabalhadores, como o cooperativismo de Rochdale, na Inglaterra, em 1844.
Mas a história não precisa terminar onde começou.
Ainda hoje, ouvimos uma afirmação que merece ser analisada com mais profundidade: “O empresário é quem dá emprego ao trabalhador”.
É verdade que uma empresa pode criar postos de trabalho. Também é verdade que o empreendedor assume riscos, investe recursos, organiza a produção e precisa tomar decisões.
Mas existe uma pergunta que não pode ser esquecida:
De onde vem a riqueza que permite a uma empresa crescer?
Vem somente do dinheiro inicialmente investido pelo proprietário?
Não.
A riqueza de uma empresa resulta de uma combinação muito mais ampla: capital, trabalho, conhecimento, tecnologia, organização, criatividade e consumo.
Sem trabalhadores, muitas empresas simplesmente não produziriam.
Sem consumidores, não venderiam.
Sem conhecimento, não inovariam.
Sem organização, não funcionariam.
E, sem capital, em muitos casos, também não conseguiriam começar.
Portanto, não existe apenas um personagem responsável pela geração de riqueza. Existe uma sociedade inteira participando desse processo.
Por isso, precisamos superar a ideia de que o trabalhador deve agradecer ao patrão simplesmente porque recebeu um emprego.
O trabalhador não está recebendo um favor. Está oferecendo algo que possui: sua capacidade de trabalhar, sua experiência, seu conhecimento, seu tempo e sua força produtiva.
E o empresário também não é necessariamente um inimigo do trabalhador. Ele exerce uma função importante na economia.
O problema surge quando uma relação de dependência econômica passa a ser apresentada como se fosse uma relação de superioridade humana.
Patrão não é superior ao trabalhador. Trabalhador não é inferior ao patrão.
São pessoas que ocupam posições diferentes dentro de determinado modelo econômico.
E esse modelo pode evoluir.
O grande desafio do nosso tempo é construir uma relação mais equilibrada entre quem investe, quem trabalha e quem produz.
Uma empresa moderna não deveria enxergar seus trabalhadores simplesmente como mão de obra, mas como participantes da construção da riqueza.
Da mesma forma, o trabalhador precisa compreender que a empresa deve ser produtiva, competitiva e sustentável. Não interessa ao trabalhador destruir a empresa da qual depende, assim como não interessa ao empresário comprometer as condições de vida de quem trabalha para ele.
É por isso que precisamos falar em cooperação, participação e distribuição mais justa dos resultados.
O diálogo entre trabalhadores e empregadores não é sinal de fraqueza. Pelo contrário: a própria Organização Internacional do Trabalho reconhece o diálogo social como um instrumento fundamental para promover melhores condições de trabalho, salários dignos, justiça social e crescimento econômico inclusivo.
Mas podemos ir além.
Precisamos começar a imaginar o futuro.
Será que a sociedade do futuro ainda precisará da figura tradicional do patrão?
Acredito que não necessariamente.
O futuro pode ser construído por meio de empresas nas quais os trabalhadores tenham participação nos resultados, cooperativas, sociedades de trabalhadores, empreendimentos comunitários, empresas com participação acionária dos empregados e outras formas de organização produtiva.