ARTICULISTAS Fim do bolsonarismo
É preciso enxergar o fim do bolsonarismo
Na semana que se seguiu à épica vitória de Lula alcançada nas urnas, o que se esperava é que o Brasil passasse a discutir seus reais problemas. por Carlos Zacarias de Sena Júnior
31/10/2026 09h01
Por: Carlos Nascimento Fonte: por Carlos Zacarias de Sena Júnior

Carlos Zacarias de Sena Júnior (Doutor em História, professor da Ufba)

Na semana que se seguiu à épica vitória de Lula alcançada nas urnas, o que se esperava é que o Brasil passasse a discutir seus reais problemas. Após o suspiro de alívio depois de noites mal dormidas pelo medo de ver um Bolsonaro voltar a governar o Brasil, meu desejo era ouvir propostas para o enfrentamento dos problemas que afligem a população brasileira. O que se viu, entretanto, foi a atenção depositada na fuga do candidato derrotado, que partiu para os Estados Unidos e, ainda por cima, se autoproclamou presidente eleito (depois líder) dos “Estados Unidos do Brazil”, espetáculo digno de covardes e megalomaníacos.

Da aparentemente espetacular fuga do candidato derrotado no pleito do último domingo, um futuro Dark Horse 2 pode vir a tratar. O que pretendo abordar neste texto é a vergonha que devem (ou deveriam) estar sentindo os quase 60 milhões de eleitores que confiaram o voto a um personagem desqualificado e incapaz como Flávio Bolsonaro, acreditando que ele poderia governar o País.

É, sem dúvida, bastante grave o tom do discurso entoado por Flávio, que aponta fraude nas urnas e perseguição aos Bolsonaro, como parte de um plano do “regime marxista” comandado por Lula, que pretenderia destruir a oposição. Nesse diapasão, impossível não imaginar a aspiração do Zero Um de ver Trump invadir o Brasil para sequestrar Lula, enquanto ele viria ocupar o lugar de Maria Corina Machado que, laureada com o Nobel da Paz, entregou a comenda a ninguém menos que o próprio Donald Trump. A atitude vassala do primogênito do clã ignora que Lula não é Maduro, o Brasil não é a Venezuela e a oposição do país, inclusive o PL, está tratando de calibrar o discurso diante do ato golpista e covarde protagonizado pelo senador fujão.

Parece improvável que os Estados Unidos comprem integralmente o novo discurso golpista, tanto mais que diante da carta divulgada pelo candidato derrotado, Trump disse que “não vai se envolver”, talvez lembrando da trapalhada que foi o mundo comprar o discurso de um outro venezuelano, Juan Guaidó, que se vendeu como presidente eleito do país. Apesar do exposto, na medida em que há variáveis diversas que podem incidir no cálculo de Trump, é recomendável ao Brasil se precaver para a eventualidade de um novo tarifaço, e até mesmo para ações militares dos Estados Unidos contra “narcoterroristas” na costa brasileira e na vasta fronteira terrestre.

No que tange aos 60 milhões de eleitores que votaram em Flávio, que parecem estar aparvalhados, recomenda-se um exame de consciência sobre até onde a desinformação e o ódio ao PT foi capaz de lhes levar. E, se é certo que para uns o correto mesmo é queimar a floresta para eliminar uma árvore doente, para outros o custo da aventura pode parecer por demais oneroso, de modo que especular sobre o fim do bolsonarismo em futuro que não esteja distante, pode não ser exagero.

Sobre o autor:
*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.

Contato: zacasenajr@uol.com.br

 *COLUNA DO AUTOR:* 

Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 10.07.2026.