Biologicamente, somos iguais a qualquer bicho: comer para não morrer, fazer sexo para a espécie não morrer. Foi só para isso que fomos programados.
O problema é que deu errado. Ou deu certo demais.
Nenhum outro animal inventou o iFood às 23h quando já jantou. Nenhum cachorro faz dieta para comer menos. Nenhum leão compra uma geladeira maior para estocar comida que não precisa.
E nenhum animal faz sexo e depois fica ansioso, culpado, comparando, gravando, vendendo, comprando, fingindo, pagando terapia por causa disso.
O que nos diferencia não é o objetivo. É o exagero.
O homem primitivo comia quando tinha fome. O homem contemporâneo come por tédio, por ansiedade, por carência. O homem primitivo fazia sexo para reproduzir. O homem contemporâneo faz para provar que é amado, que é desejado, que é poderoso, que não está sozinho.
A gente continua sendo um bicho com duas necessidades básicas, só que criou um terceiro monstro no meio: o significado.
A gente não quer só comer. Quer comer o melhor, postar o que comeu, ser invejado pelo que comeu.
A gente não quer só fazer sexo. Quer ser validado por ele.
No fundo, ainda somos o animal da savana olhando para a comida e para a fêmea. Só que agora estamos de tênis caro, com fome o tempo todo, e com uma solidão que nenhum outro animal conhece.
Mas, o que isso tem a ver com o "caso Vorcaro", pois é, parece que Vocaro descobriu as necessidades de cada um dos ilustres personagens da república brasileira, e assim como um gênio da lâmpada mágica, saiu atendendo aos pedidos de cada um. Quem gostava de mulheres, ele deu mulheres, quem gostava de homem, ele deu homem, quem gostava de charutos e Macalan, ele também deu, e quem gostava de dinheiro, ele também deu, afinal, o homem era dono da fábrica de dinheiro, banqueiro, dono de banco.
O êxtase que encontravam-se os beneficiados do gênio Vorcaro, os deixaram sem perceber o que o "bom gênio" queria em troca, como diz o ditado: "não existe festa de graça, alguém está pagando", e sem dúvidas no caso em concreto, não era o sabido gênio, eram milhares de correntistas de consignados, a maioria deles comptados pelo governo do Estado da Bahia, através de convênio com o banco Master. Os juros altos, através de empréstimos intermináveis, com certeza serviam de certeza de lucro garantido, e os "mimos" de agradecimentos aos atuais senadores Jacques Wagner e Rui Costa do PT, aliados do presidente da república, Luiz Ignácio da Silva, o Lula, não faltaram também, através de contrato de consultoria da empresa Bonnie e Bonilha, da nora de Jacques Wagner, no valor de R$11 milhões, além de um apartamento de alto padrão avaliado em cerca de R$ 2,45 milhões (localizado no empreendimento Poème Horto, no Horto Florestal, em Salvador), o qual seria um presentinho ao atual senador Wagner.
O extinto animal de se alimentar e reproduzir, é superado no momento em que o homem desperta o sentimento de poder, de ganância, e a ele não importa mais em só se alimentar, ele pensa em acumular, em possuir, em ter e consequentemente deixa de ser o homem primitivo que preservava a essência do ser, e passa a ser a essência do ter.
O poder não destrói o homem de uma vez. Ele faz pior: destrói aos poucos.
No começo, o homem quer o poder para fazer o bem. Depois, quer o poder para continuar no poder. No final, faz o mal para não perder o poder.
O poder revela. Ele não transforma o sujeito em outra pessoa, ele tira a máscara. O humilde que ganha poder e continua humilde é porque já era humilde. O arrogante que ganha poder e se torna cruel é porque já era cruel, só estava sem oportunidade.
E o poder isola. Quanto mais alto o homem sobe, menos gente diz a verdade para ele. Todo mundo passa a dizer o que ele quer ouvir. Ele começa a acreditar na própria mentira.
Por isso a Bíblia diz: melhor é o fim das coisas do que o princípio.
Muita gente grande começou pequena e honesta. Pouca gente grande terminou grande e honesta.
Sobre o autor:
(*) Luiz Ferreira é articulista e analista político, com atuação voltada à leitura crítica da história política brasileira contemporânea. Acompanha de forma permanente os movimentos ideológicos, as relações de poder e os impactos das decisões governamentais na vida da sociedade. Seus textos priorizam a análise histórica, o debate público e a formação de opinião, com foco no interesse do cidadão comum.
Redes sociais:
E-mail: lcfsferreira@gmail.com
Facebook: /LcfsFerreira
(*) COLUNA DO AUTOR:
(*) Os artigos publicados no Página de Polícia são de responsabilidade exclusiva de seus autores. Eles não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial Portal, que busca preservar a pluralidade de perspectivas e o debate qualificado.