A POLÍTICA E A PSICOLOGIA DAS MASSAS
Uma síntese comportamental do eleitor brasileiro diante da polarização política entre setores da direita e da esquerda
1. Introdução
A política, enquanto instrumento de organização da sociedade e exercício do poder, não pode ser compreendida exclusivamente a partir das instituições, dos partidos políticos e das disputas eleitorais. É necessário considerar também os fatores psicológicos e sociais que influenciam a formação das opiniões, das convicções ideológicas e das decisões do eleitor.
No Brasil, a polarização entre setores identificados com a direita e a esquerda tornou-se um elemento importante da vida pública. As divergências ultrapassam, em determinadas circunstâncias, as discussões sobre programas de governo, políticas econômicas e projetos sociais, alcançando as relações familiares, as amizades, os ambientes de trabalho e as interações nas redes sociais.
Nesse contexto, a psicologia das massas oferece instrumentos teóricos para compreender como indivíduos, quando inseridos em grupos socialmente mobilizados, podem modificar suas percepções, intensificar suas convicções e desenvolver sentimentos de identificação ou rejeição em relação a determinados grupos políticos.
Isso não significa que o eleitor brasileiro seja necessariamente irracional ou incapaz de formular julgamentos próprios. Significa, antes, que o comportamento eleitoral resulta da interação entre razão, emoção, experiência pessoal, identidade social, interesses materiais e informações disponíveis.
2. A psicologia das massas e o comportamento político
Um dos autores clássicos no estudo desse fenômeno é Gustave Le Bon, que, em sua obra Psicologia das Massas, publicada em 1895, examinou as transformações comportamentais que podem ocorrer quando indivíduos passam a integrar coletividades mobilizadas.
Para Le Bon, a multidão pode favorecer a intensificação das emoções, a difusão de crenças e a adoção de comportamentos coletivos que nem sempre correspondem à maneira como cada indivíduo agiria isoladamente.
Embora suas formulações tenham limitações e devam ser analisadas criticamente à luz das pesquisas contemporâneas, elas contribuíram para o desenvolvimento dos estudos sobre comportamento coletivo e mobilização política.
Na realidade brasileira, essa perspectiva permite examinar manifestações públicas, campanhas eleitorais, movimentos organizados e comunidades políticas que compartilham símbolos, narrativas, lideranças e objetivos.
O indivíduo não deixa necessariamente de pensar por si mesmo ao participar de um grupo. Entretanto, sua interpretação dos acontecimentos pode ser influenciada pelas expectativas coletivas, pela necessidade de pertencimento e pela confiança depositada nas lideranças que representam sua visão de mundo.
A identidade política, portanto, não se forma apenas pela avaliação objetiva das propostas apresentadas pelos candidatos. Ela também pode expressar valores, experiências, expectativas sociais e a necessidade de reconhecimento dentro de determinada comunidade.
3. Emoção, identidade e escolha eleitoral
O comportamento do eleitor não pode ser explicado exclusivamente por cálculos racionais sobre as vantagens e desvantagens de cada candidatura.
Medo, esperança, indignação, ressentimento, confiança e sentimento de pertencimento podem desempenhar papéis importantes na formação das preferências políticas.
Em períodos de disputa eleitoral, discursos que despertam emoções intensas podem adquirir grande repercussão, sobretudo quando encontram correspondência nas experiências pessoais ou nas preocupações de determinados segmentos da população.
O eleitor que teme perder direitos, renda, segurança ou oportunidades pode interpretar a disputa política como uma defesa de sua própria sobrevivência material e social. Outro eleitor pode compreender o mesmo processo como uma oportunidade de transformação das estruturas econômicas e sociais.
(*) Laudelino Conceição (Lau) é ex-vereador de Salvador, escrivão de Polícia Civil da Bahia, professor de Filosofia, acadêmico de Direito, pós graduado em Administração Pública, poeta e escritor.