EDITORIAL CONFIRA LULA NO FLOW
STF MELA O DEBATE DA GLOBO?
CONFIRA LULA NO FLOW | Decisões do TSE e do STF alteraram, nas horas que antecederam o programa, regras e participantes do último debate antes do primeiro turno. Diante do impasse, a Globo decidiu cancelar a transmissão.
02/10/2026 11h44 Atualizada há 1 hora
Por: Carlos Nascimento Fonte: por CARLOS NASCIMENTO

2 DE OUTUBRO DE 2026

Era para ser a grande noite da televisão brasileira antes do primeiro turno. O momento em que os candidatos à Presidência da República ficariam frente a frente, respondendo perguntas, apresentando propostas e enfrentando os adversários.

Não foi.

Pela primeira vez desde que a Globo passou a realizar debates presidenciais no primeiro turno, em 2002, a emissora cancelou integralmente o programa.

E o cancelamento aconteceu praticamente em cima da hora.

A pergunta que ficou no ar é inevitável:

STF MELA O DEBATE DA GLOBO?

A resposta, olhando os fatos, exige separar as decisões judiciais da decisão final da emissora.

O STF não determinou o cancelamento do debate. O que houve foi uma sequência de decisões judiciais, envolvendo TSE e STF, que modificou regras e a composição do programa nas horas que antecederam sua realização.

Diante desse cenário, a Globo decidiu cancelar.

E aí começa a história.

A PRIMEIRA BOMBA: LULA NÃO VAI

O presidente Lula já havia informado que não participaria do debate da Globo. No mesmo horário, optou por conceder entrevista ao Flow Podcast.

Pelas regras previamente estabelecidas entre a emissora e as campanhas, a ausência de um candidato seria representada no cenário pelo púlpito vazio, identificado com o nome do ausente.

Também estava prevista a possibilidade de os candidatos presentes fazerem perguntas dirigidas ao candidato que não comparecesse.

Foi justamente aí que entrou o TSE.

A ministra Estela Aranha concedeu uma liminar proibindo a Globo de mostrar o púlpito vazio destinado a Lula e também de permitir perguntas diretamente dirigidas ao candidato ausente.

Na decisão, a ministra considerou que a ausência deveria significar a perda da oportunidade de participar daquela rodada, sem produzir consequências eleitorais adicionais.

Uma decisão judicial havia mudado uma das regras do jogo poucas horas antes da partida.

DEPOIS VEIO GILMAR MENDES

Quando parecia que a situação já estava complicada, surgiu uma nova decisão.

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que a Globo incluísse o candidato Renan Santos, do Missão, no debate.

A decisão contrariou decisões anteriores que haviam negado a participação do candidato.

Renan Santos passaria a ocupar a vaga aberta pela desistência de Lula, com condições de participação equivalentes às dos demais candidatos.

Ou seja: já não se tratava apenas de discutir o que fazer com uma cadeira vazia.

Agora havia também uma mudança na própria composição do debate.

E tudo isso acontecia praticamente em cima da hora.

E FLÁVIO BOLSONARO DESISTIU

Como se não bastasse, Flávio Bolsonaro, que havia confirmado presença, anunciou que não participaria.

A desistência ocorreu justamente em meio à crescente controvérsia envolvendo as decisões judiciais que alteraram a dinâmica do programa.

De repente, o cenário era outro.

Lula fora.

Flávio Bolsonaro fora.

Renan Santos incluído por determinação judicial.

A regra do púlpito vazio modificada pelo TSE.

E outras decisões judiciais também haviam interferido anteriormente na composição do debate.

Foi então que a Globo tomou a decisão de cancelar.

A emissora alegou que as sucessivas decisões judiciais haviam interferido nas regras previamente acordadas com as campanhas e criado condições incompatíveis com a realização do programa da maneira planejada.

QUANDO A JUSTIÇA ENTRA NO PALCO

É aqui que está o ponto central da discussão.

Debates eleitorais possuem regras previamente estabelecidas. Essas regras envolvem número de participantes, tempo de fala, perguntas, respostas, posição dos candidatos e dinâmica do programa.

Quando decisões judiciais alteram esses elementos poucas horas antes da transmissão, a emissora precisa adaptar o programa.

Neste caso, foram várias mudanças em sequência.

O TSE determinou que o púlpito vazio de Lula não fosse exibido.

Também proibiu perguntas diretamente dirigidas ao candidato ausente.

Depois, uma decisão do STF determinou a inclusão de Renan Santos.

Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro desistiu de participar.

O resultado foi uma situação completamente diferente daquela que havia sido planejada originalmente.

A Globo então cancelou.

E é justamente por isso que a pergunta do título permanece:

STF MELA O DEBATE DA GLOBO?

Não porque o Supremo tenha determinado diretamente o cancelamento, mas porque uma decisão do STF, somada às decisões do TSE e às desistências dos candidatos, fez parte da sequência de acontecimentos que terminou com o cancelamento.

O FANTASMA DE 1989

Debate presidencial no Brasil não é apenas televisão.

É memória política.

E quando se fala em debate presidencial, é impossível não lembrar de 1989, quando Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva disputaram o segundo turno da primeira eleição presidencial direta após 29 anos.

Naquela eleição aconteceram dois debates entre Collor e Lula, realizados por um pool formado por Globo, Bandeirantes, Manchete e SBT.

O segundo debate ocorreu em 14 de dezembro de 1989.

No dia seguinte, a Globo exibiu trechos editados no Jornal Hoje e no Jornal Nacional.

A edição do Jornal Nacional provocou uma das maiores controvérsias da história do jornalismo político brasileiro.

DEBATE EDITADO:

A Globo foi acusada de selecionar os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. Também houve questionamentos sobre o tempo concedido a cada candidato.

O PT chegou a recorrer à Justiça Eleitoral pedindo direito de resposta, mas o pedido foi negado.

É importante separar a história documentada das versões que surgiram posteriormente.

Não há base documental suficiente para afirmar simplesmente que "o debate foi armado para Collor ganhar" ou que a posição dos candidatos na bancada tenha sido previamente manipulada para produzir aquele resultado.

O que está documentado é a forte controvérsia provocada pela edição do debate exibida posteriormente.

A repercussão daquele episódio levou a Globo a adotar, nos anos seguintes, a transmissão dos debates políticos ao vivo e na íntegra.

DE 1989 A 2026

Há uma diferença enorme entre os dois episódios.

Em 1989, o debate aconteceu.

A polêmica veio depois, por causa da edição transmitida pela televisão.

Em 2026, o debate sequer conseguiu acontecer.

E isso merece reflexão.

O debate eleitoral é um espaço importante de exposição pública. É onde os candidatos precisam responder uns aos outros diante das câmeras, sem a possibilidade de escolher previamente cada pergunta, cada resposta ou cada adversário.

É também um dos poucos momentos em que o eleitor consegue observar os candidatos simultaneamente, submetidos às mesmas regras e ao mesmo tempo de exposição.

Mas, desta vez, o palco ficou vazio.

A DECISÃO DO TSE | ESTELA ARANHA

A ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral, concedeu liminar determinando que a Globo não exibisse o púlpito vazio destinado ao candidato ausente.

Também proibiu que os demais participantes dirigissem perguntas diretamente ao candidato que não comparecesse.

A decisão considerou que a ausência não deveria produzir efeitos eleitorais adicionais além da própria perda da oportunidade de participar do debate.

A DECISÃO DO STF | GILMAR MENDES

O ministro Gilmar Mendes determinou que a TV Globo incluísse Renan Santos, candidato do Missão, no debate presidencial.

A decisão ocorreu depois de pedidos anteriores de participação terem sido rejeitados.

Renan Santos passaria a ocupar a vaga aberta pela ausência de Lula, com condições de participação equivalentes às dos demais candidatos.

E O ELEITOR?

No meio dessa disputa institucional ficou justamente quem deveria estar no centro de tudo:

o eleitor.

O debate da Globo seria a última grande oportunidade televisiva antes do primeiro turno.

Não aconteceu.

Não houve confronto.

Não houve perguntas entre os candidatos.

Não houve respostas.

Não houve o enfrentamento direto que tradicionalmente transforma os debates em momentos importantes de uma campanha presidencial.

E talvez esse seja o aspecto mais relevante de toda essa história.

Não se trata simplesmente de escolher um culpado.

Globo, TSE, STF e candidatos tiveram papéis diferentes em uma sequência de acontecimentos que terminou com o cancelamento do programa.

O fato concreto é que o debate que estava marcado não aconteceu.

Em 1989, uma controvérsia envolvendo a edição de um debate mudou a maneira como a Globo passou a transmitir esses encontros.

Em 2026, quase quatro décadas depois, a história registra outro episódio inédito:

O DEBATE NEM CHEGOU A ACONTECER.

Uma bancada preparada.

Microfones ligados.

Candidatos aguardando.

Milhões de brasileiros diante da televisão.

E, no lugar do confronto que poderia ajudar o eleitor a conhecer melhor os candidatos...

SILÊNCIO.

LULA NO FLOW: A ENTREVISTA QUE OCUPOU O ESPAÇO DO DEBATE DA GLOBO

Na noite de 1º de outubro, enquanto a TV Globo deveria transmitir o último debate presidencial antes do primeiro turno, Lula estava no Flow Podcast.

A entrevista começou justamente no horário em que milhões de brasileiros esperavam o confronto entre os candidatos.

E a escolha não passou despercebida.

Questionado sobre sua ausência no debate da Globo, Lula foi direto ao explicar a preferência pelo Flow. Em tom descontraído, afirmou:

“Gosto mais de você do que da Globo.”

Durante a conversa, o presidente também criticou o atual formato dos debates eleitorais, principalmente quando reúne muitos candidatos com posições e desempenhos muito diferentes nas pesquisas.

Na avaliação apresentada por Lula, esse tipo de formato pode acabar transformando o debate em uma sucessão de ataques, provocações e tentativas de ganhar repercussão, deixando em segundo plano a discussão sobre os problemas do país.

No Flow, Lula teve a oportunidade de falar durante um longo período, sem a dinâmica de perguntas e respostas entre vários candidatos.

A entrevista abordou diversos assuntos que estão no centro da campanha presidencial.

Entre eles, economia, apostas, INSS, investigações envolvendo o sistema financeiro e o caso Banco Master.

Lula também falou sobre as investigações relacionadas ao Banco Master e defendeu que todos os envolvidos sejam investigados, independentemente de sua posição política ou de suas relações pessoais.

Outro momento de repercussão ocorreu quando o presidente foi questionado sobre seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e sobre pessoas relacionadas às investigações.

Lula afirmou que, se o filho tiver cometido alguma ilegalidade, deverá responder por seus próprios atos. Também defendeu que ele preste os esclarecimentos necessários às autoridades.

UMA NOITE DE DUAS TELEVISÕES

O episódio acabou produzindo uma situação curiosa.

De um lado, a TV Globo preparava o cenário para aquele que deveria ser o último grande debate presidencial antes do primeiro turno.

Do outro, Lula estava no Flow, concedendo uma entrevista que ocupou exatamente o espaço em que o debate deveria estar no ar.

Pouco depois, porém, o cenário mudou completamente.

O debate da Globo foi cancelado após uma sequência de decisões judiciais que modificaram regras e participantes, além das ausências de Lula e Flávio Bolsonaro.

Assim, enquanto o palco da Globo permaneceu vazio, a entrevista de Lula seguia acontecendo.

O FLOW GANHOU O HORÁRIO DO DEBATE

A entrevista também chamou atenção pela audiência.

O programa alcançou números expressivos de espectadores simultâneos e se transformou em um dos principais acontecimentos da noite eleitoral.

A escolha de Lula pelo Flow mostrou uma mudança importante na comunicação política.

Em vez de depender exclusivamente da televisão tradicional, o candidato pode utilizar plataformas digitais para falar diretamente com milhões de pessoas.

No Flow, Lula não precisava dividir o tempo com outros candidatos.

Não precisava responder a uma pergunta de adversário imediatamente.

Não precisava seguir a dinâmica de um debate.

Tinha um ambiente mais controlado para apresentar seus argumentos e responder aos questionamentos dos entrevistadores.

E O ELEITOR?

A questão que permanece é justamente essa.

O eleitor esperava assistir ao último grande confronto entre os candidatos antes do primeiro turno.

O debate não aconteceu.

Lula, entretanto, falou.

Falou durante uma entrevista longa, em um dos maiores canais de podcast do país.

No mesmo horário em que deveria estar diante dos adversários na televisão, estava diante de milhões de espectadores na internet.

De um lado, o debate que não aconteceu.

Do outro, uma entrevista que aconteceu e alcançou grande audiência.

No final daquela noite, ficou uma imagem curiosa da eleição de 2026:

o palco da Globo estava preparado.

Os púlpitos estavam posicionados.

As câmeras estavam prontas.

Mas o confronto não aconteceu.

Enquanto isso, no Flow, Lula estava diante dos microfones.

O debate foi cancelado. A entrevista aconteceu.

E essa diferença acabou se transformando em um dos episódios mais marcantes da campanha presidencial até aqui.