No último domingo, militantes do partido Missão e bolsonaristas trocaram socos em frente à reitoria da UFBA em ato realizado pelo candidato à presidência Renan Santos (Missão). Fundado em 2025 por iniciativa do Movimento Brasil Livre (MBL), o Missão surgiu envolto em polêmicas. Reportagem do The Intercept Brasil de 12/11/2024 afirma que “MBL coletou assinaturas sem avisar que era para criar partido”, mas há muito mais. Em 2022, o deputado da ALESP e membro do MBL Arthur do Val foi cassado por dizer que as ucranianas “são fáceis porque são pobres”. Na ocasião Do Val ainda se referiu à “fila das refugiadas” como melhor do que qualquer fila de “balada do Brasil” e também afirmou que Renan Santos fazia um “tour de blonde” pelo exterior “só para pegar louras”.
O rol de absurdos do MBL não para por aí, mas tem gente passando pano para o candidato à presidente do Missão, apenas porque o extremista bate de frente com Flávio Bolsonaro, como se um e outro fossem diferentes. Considerando que o bolsonarismo e o MBL nasceram do antipetismo e surfaram na onda das Fake News e do ódio à política, difícil é saber quem é pior.
A propósito do ato em frente à Reitora da UFBA, a direção da universidade divulgou nota repudiando a fala de David Pirajá, presidente do partido na Bahia, que defendeu que chacinas sejam realizadas em favelas da cidade, que estariam “tomadas pelo crime”. Segundo Pirajá, “tem que ter uma chacina no Bairro da Paz, (...) no Planeta dos Macacos. A gente tem que entrar nessas favelas e fazer um banho de sangue com todo mundo do Comando Vermelho”.
Tal qual o bolsonarismo, a única coisa que o Missão tem a oferecer ao eleitor é violência contra minorias e opositores. Todavia, quando não estão atacando seus inimigos habituais, os extremistas matam-se uns aos outros, daí a explicação para a pancadaria entre bolsonaristas e militantes do MBL, algo que também se encontra na história, cujo episódio mais famoso é a “Noite das Facas Longas”, ocorrida na Alemanha nazista em 1934.
O tom do discurso do MBL do último domingo, que provocou a correta nota da Reitoria da UFBA, conclamando as autoridades a tomarem medidas contra as “práticas abusivas e criminosas neste período eleitoral”, deveria indignar a todos e dar início a processo de cassação do registro do partido Missão. No entanto, após endossar a fala do correligionário baiano, Renan Santos respondeu a perguntas de um repórter de emissora de TV nacional como se defender banho de sangue em comunidade de gente humilde fosse aceitável.
Há 100 anos um obtuso senhor de bigodinho foi normalizado pelos alemães, que viram suas classes dominantes lhe estenderam as mãos diante do caos que não podiam debelar. No próximo domingo os brasileiros terão oportunidade de mostrar que aprenderam com a história. Do contrário, podemos esperar a intensificação da violência política contra pobres e opositores como o novo normal.
Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 02.10.2026.
Sobre o autor:
*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.
Contato: zacasenajr@uol.com.br
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