EDITORIAL SEM CARA DE ELEIÇÃO
UMA ELEIÇÃO SEM CARA DE ELEIÇÃO
A campanha de 2026 chega à reta final marcada pelo ambiente virtual, pelos ataques, pelos escândalos e por uma disputa institucional que acabou ocupando mais espaço do que as propostas para o futuro do país
01/10/2026 09h54
Por: Carlos Nascimento Fonte: por CARLOS NASCIMENTO

A campanha de 2026 chega à reta final marcada pelo ambiente virtual, pelos ataques, pelos escândalos e por uma disputa institucional que acabou ocupando mais espaço do que as propostas para o futuro do país

Há alguma coisa diferente nas eleições de 2026. E não é apenas a tecnologia, a mudança no comportamento do eleitor ou a força das redes sociais. O que mudou foi o próprio clima da eleição.

É como se o país estivesse diante de uma das maiores decisões políticas dos últimos anos, mas sem sentir nas ruas aquele velho ambiente de campanha eleitoral.

Quem viveu outras eleições certamente percebe a diferença.

No passado, eleição tinha cheiro, barulho e cor. Era gente vestindo a camisa do candidato, bandeiras nas ruas, carros adesivados, comícios, carreatas, reuniões políticas e aquela movimentação que transformava as cidades durante semanas. Muros eram pintados, santinhos estavam espalhados por todos os lados e as pessoas discutiam política nas esquinas, nos bares, nos ônibus e nas filas.

Hoje, grande parte dessa eleição cabe dentro de uma tela de celular.

A campanha chega ao eleitor por vídeos curtos, mensagens encaminhadas, cortes de entrevistas, memes, transmissões ao vivo e publicações nas redes sociais. O TSE, inclusive, estabeleceu regras específicas para a propaganda eleitoral na internet e para o uso de inteligência artificial durante o processo eleitoral.

Mas a transformação tecnológica talvez seja apenas uma parte da explicação.

ATAQUES NO LUGAR DO DEBATE

Uma das marcas mais evidentes desta campanha foi o espaço ocupado pelos ataques entre adversários.

Em muitos momentos, pareceu que falar contra o outro candidato era mais importante do que explicar ao eleitor o que se pretende fazer caso eleito.

É claro que uma campanha eleitoral sempre terá críticas, denúncias, acusações e confronto de ideias. Isso faz parte da democracia. O problema aparece quando o conflito passa a ocupar quase todo o espaço e as propostas ficam em segundo plano.

O eleitor quer saber como será a saúde, a segurança pública, a educação, a geração de empregos, o controle das contas públicas, a infraestrutura e tantos outros assuntos que afetam diretamente a vida das pessoas.

Mas essas discussões muitas vezes foram abafadas pelo barulho político.

E quando surgia uma proposta, nem sempre ela permanecia tempo suficiente no debate para ser discutida com profundidade.

O STF NO CENTRO DO PALCO

Outro elemento que marcou 2026 foi o protagonismo do Supremo Tribunal Federal e, em diferentes momentos, da Justiça Eleitoral.

A crise institucional e as discussões envolvendo ministros do STF entraram diretamente no debate eleitoral. O tema do impeachment de ministros, por exemplo, passou a fazer parte das manifestações de candidatos ao Senado em diferentes regiões do país.

Com isso, uma eleição que deveria estar essencialmente concentrada na escolha de quem vai governar e representar a população acabou também sendo atravessada por uma disputa maior em torno das instituições.

Não se trata apenas de uma discussão jurídica. O STF passou a ocupar um espaço político no imaginário da campanha, enquanto candidatos e grupos políticos passaram a utilizar decisões e conflitos envolvendo a Corte como parte de suas estratégias eleitorais.

O resultado foi uma campanha ainda mais institucionalizada, mais judicializada e, em muitos momentos, distante do cidadão comum.

E O CONGRESSO?

Enquanto o Supremo aparecia constantemente no noticiário, o Congresso Nacional pareceu desempenhar um papel secundário no debate eleitoral.

O presidente da Câmara e o presidente do Senado não tiveram, ao menos na percepção de boa parte da população, o protagonismo que se poderia esperar de duas das principais autoridades políticas do país.

O Congresso deveria estar no centro da discussão sobre os rumos do Brasil.

Afinal, é ali que estarão deputados e senadores responsáveis por votar leis, fiscalizar o Executivo, discutir o orçamento e participar diretamente das grandes decisões nacionais.

Mas a campanha de 2026 não conseguiu transformar o Legislativo em protagonista de um grande debate nacional sobre o futuro do país.

E isso também ajuda a explicar a sensação de uma eleição fria.

UMA CAMPANHA SEM A FESTA DE OUTROS TEMPOS

Talvez o que mais chame atenção seja justamente a ausência daquele sentimento coletivo de que o país está em período eleitoral.

Não se vê a mesma quantidade de bandeiras.

Não se vê a mesma movimentação nas ruas.

Não se vê a população usando, em grande escala, as camisas dos seus candidatos.

Não se vê aquela disputa visual que fazia parte da paisagem das cidades.

A eleição migrou para o ambiente digital.

É mais silenciosa nas ruas, mas muito mais intensa dentro dos celulares.

O eleitor recebe dezenas de conteúdos diariamente, muitas vezes sem saber exatamente de onde vieram, quem produziu ou qual é a intenção daquela mensagem.

É uma campanha permanente, mas ao mesmo tempo uma campanha que parece não estar acontecendo.

Essa talvez seja uma das grandes contradições das eleições de 2026.

E O ELEITOR?

No meio de tudo isso está o eleitor.

Cansado de brigas, escândalos, acusações e disputas intermináveis, ele chega às urnas tendo que separar aquilo que é informação daquilo que é propaganda.

E talvez essa seja a principal tarefa desta eleição.

Mais do que escolher um nome, será necessário escolher entre propostas, trajetórias, compromissos e posições.

O eleitor precisa olhar para além do vídeo de poucos segundos.

Precisa conhecer o candidato.

Precisa saber o que ele defende, o que já fez, como pretende fazer aquilo que promete e, principalmente, quem estará ao lado dele depois da eleição.

Porque campanha acaba.

O mandato fica.

A RENOVAÇÃO QUE PODE NÃO VIR

Outro ponto que merece atenção é a expectativa de renovação do Congresso.

Existe um desejo evidente de mudança em parte do eleitorado. Entretanto, desejo de renovação não significa necessariamente uma grande renovação nas urnas.

A tendência é que Câmara e Senado continuem tendo forte presença de nomes conhecidos, políticos tradicionais e grupos que já possuem estruturas partidárias e eleitorais consolidadas.

Isso não significa que novos nomes não possam surgir. Eles podem e certamente surgirão.

Mas renovar o Congresso é muito mais difícil do que simplesmente desejar novos representantes.

A estrutura política brasileira favorece quem já possui mandato, partido, recursos, alianças e reconhecimento público.

Por isso, a expectativa de uma grande mudança precisa ser observada com cautela.

O QUE ESPERAR DO PRÓXIMO CICLO?

Independentemente de quem vencer a eleição presidencial, quais governadores forem eleitos ou quais candidatos conquistarem uma vaga no Congresso, uma coisa deveria ficar como lição desta campanha.

O país precisa voltar a discutir propostas.

O eleitor precisa voltar a ser colocado no centro do debate.

A política não pode ser apenas uma disputa permanente de acusações.

O próximo ciclo político deveria ser marcado por uma cobrança maior sobre resultados. Menos discurso vazio e mais compromisso. Menos guerra política e mais discussão sobre aquilo que realmente afeta a vida das pessoas.

A democracia não termina no dia da votação.

Na verdade, é depois da eleição que começa a parte mais importante.

UMA ELEIÇÃO QUE DEIXOU UM SINAL

A campanha de 2026 provavelmente será lembrada como uma eleição diferente.

Uma eleição mais virtual, mais judicializada, marcada por conflitos institucionais, ataques e escândalos, mas que deixou em segundo plano uma discussão mais profunda sobre o projeto de país que cada candidato pretende construir.

Foi uma campanha fria nas ruas e quente nas redes sociais.

Uma eleição em que o barulho foi grande, mas o debate nem sempre acompanhou o volume.

Talvez o grande desafio dos próximos anos seja justamente recuperar aquilo que parece ter ficado para trás: a capacidade de fazer política conversando com as pessoas, apresentando ideias e disputando votos pelo que se pretende construir, e não apenas pelo que se consegue destruir no adversário.

No fim das contas, o eleitor continua sendo o verdadeiro protagonista.

E cabe a ele decidir, diante da urna, quais nomes merecem representar seus interesses nos próximos quatro anos.

Depois disso, não haverá mais campanha.

Haverá cobrança.