Há um fenômeno que merece ser observado para além da disputa entre direita e esquerda: a capacidade de alguns eleitores de permanecerem fiéis a um político mesmo quando surgem fatos que deveriam, no mínimo, provocar dúvida. Como escreveu o médium e mestre em Família José Medrado, em “O fanático não hesita”, quando uma convicção se transforma em identidade, a pessoa pode deixar de examinar os fatos para proteger aquilo em que acredita.
É o chamado raciocínio motivado: não usamos necessariamente a informação para formar uma opinião; muitas vezes usamos argumentos para defender uma opinião já formada.
A eleição de 2026 oferece exemplos eloquentes. ACM Neto tem seu nome relacionado às investigações envolvendo o Banco Master e a Operação Overclean. Houve pedido de busca contra ele e, posteriormente, autorização judicial para quebra de seus sigilos no caso Banco Master. São fatos que justificam investigação, embora investigação não seja condenação.
Mas a pergunta é outra: por que parte de seus eleitores trata essas informações como perseguição política, enquanto acusações contra adversários são imediatamente tomadas como prova de corrupção?
Jerônimo Rodrigues, que é principal adversário na Bahia, não aparece como investigado pessoalmente nesses esquemas. Ainda assim, para alguns, basta a suspeita envolvendo integrantes de seu campo político para que a conclusão seja: “Jerônimo é corrupto”.
Já no plano nacional, algo semelhante ocorre com Flávio Bolsonaro. Seu nome está diretamente relacionado a investigações no STF envolvendo o caso Dark Horse/Banco Master. Novamente: investigar não significa condenar. Mas cabe perguntar: por que uma investigação contra Flávio pode ser descartada como perseguição, enquanto suspeitas contra Lula são tratadas como verdades definitivas?
Lula teve suas condenações da Lava Jato anuladas pelo STF. No contexto eleitoral de 2026, não aparece como investigado pessoalmente em esquema de corrupção equivalente ao que atualmente envolve Flávio Bolsonaro.
Então surge a pergunta que talvez mais incomode: que fato faria você mudar de voto?
Se a resposta for “nenhum”, o problema talvez já não esteja no candidato, mas na relação do eleitor com sua própria convicção.
O fanático não hesita porque já decidiu o que precisa ser verdade. O cidadão, ao contrário, pode ter convicções profundas, mas conserva uma dúvida essencial: “E se eu estiver errado?”. Essa pergunta não enfraquece o voto; ela o torna livre.
Porque a democracia não exige eleitores sem convicções. Exige eleitores capazes de submeter suas convicções aos fatos. Quando a investigação do adversário é prova e a investigação do meu candidato é perseguição, a régua deixou de ser a mesma.
E quando nenhuma evidência é capaz de mudar nossa certeza, talvez já não estejamos diante de uma convicção. Estamos diante de uma crença.
JURANDI S. ARAÚJO
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(*) Publicado no Jornal A Tarde, (Espaço do Leitor), edição de 26.09.2026