Vivemos um momento em que muitas pessoas estão revendo suas posições políticas. Isso, por si só, não representa nenhum problema. Mudar de opinião faz parte da democracia, assim como repensar escolhas e reconhecer que determinados caminhos já não correspondem às próprias convicções.
O problema começa quando uma mudança de lado não nasce de uma reflexão política, mas de uma frustração pessoal.
É preciso ter cautela ao analisar o comportamento de alguns companheiros que, durante muitos anos, construíram sua trajetória dentro de determinada corrente política e, depois de se sentirem contrariados, desprestigiados ou não reconhecidos como imaginavam, passaram a procurar outra tendência para se posicionar.
Há casos de pessoas que vieram da esquerda, inclusive de partidos como o Partido dos Trabalhadores, e que hoje se aproximam da direita. Não há nada de errado em mudar de partido ou de corrente política. A democracia garante essa liberdade.
O que merece reflexão é a razão dessa mudança.
Uma coisa é abandonar uma posição política porque, depois de estudar, refletir e amadurecer, você chegou à conclusão de que seus princípios já não estão representados naquele campo.
Outra coisa, completamente diferente, é romper com uma história política porque não recebeu o tratamento que esperava, porque não conseguiu determinado espaço, porque não teve um privilégio ou porque acreditava que deveria ocupar uma posição de maior destaque.
Nesse segundo caso, talvez não estejamos diante de uma verdadeira mudança de convicção. Podemos estar diante apenas de uma reação pessoal transformada em posicionamento político.
E isso exige cuidado.
A política não pode ser utilizada como instrumento de vingança pessoal. Tampouco deve servir para resolver ressentimentos, disputas internas ou frustrações individuais.
Quem construiu uma história em determinado campo político precisa ter a honestidade de fazer uma avaliação profunda antes de romper com suas próprias origens.
É preciso perguntar a si mesmo:
Eu realmente mudei de pensamento ou apenas estou magoado com as pessoas que estavam ao meu lado?
Essa pergunta é fundamental.
Uma mudança de posição política exige reflexão. Não deveria ser apenas uma resposta emocional a uma derrota, a uma ausência de reconhecimento ou à perda de espaço.
Também precisamos ter cuidado com aqueles que ficam permanentemente "em cima do muro", transitando entre tendências conforme as circunstâncias, as oportunidades ou os interesses do momento.
A independência política é legítima. O oportunismo é outra coisa.
Não se trata de dizer que alguém é obrigado a permanecer eternamente fiel a um partido ou a uma ideologia. Ninguém deve ser prisioneiro da própria história.
As pessoas podem mudar. Podem rever conceitos, abandonar partidos, aproximar-se de outras correntes e até passar a defender posições completamente diferentes das que defenderam no passado.
Isso faz parte da liberdade política.
Mas também não podemos transformar a política em um mercado de conveniências, no qual se abandona uma posição porque não se conseguiu o reconhecimento desejado e, imediatamente, se procura outra corrente para combater os antigos companheiros.
A democracia precisa de divergência, mas também precisa de coerência.
É perfeitamente possível mudar de opinião sem abandonar os princípios de respeito, honestidade e lealdade que fizeram parte da própria trajetória.
Romper politicamente com antigos companheiros não deveria significar apagar a própria história ou transformar aqueles que ontem eram aliados em inimigos simplesmente porque as circunstâncias mudaram.
Antes de abraçar uma nova tendência política apenas para se contrapor àquela de onde veio, talvez seja necessário parar e fazer uma avaliação mais cautelosa.
Não devemos perguntar apenas para onde uma pessoa está indo.
Precisamos perguntar também por que ela está indo.
Uma mudança política baseada em convicções pode representar amadurecimento. Pode significar reflexão, aprendizado e uma nova compreensão da realidade.
Mas uma mudança motivada exclusivamente por ressentimento, privilégio perdido ou desejo de revanche pode simplesmente representar uma nova forma de continuar fazendo a mesma política, apenas do outro lado.
No fim, mais importante do que saber em qual lado alguém está é compreender quais princípios continuam orientando suas escolhas.
(*) Jorge Araújo Pereira
Bel. Comunicação Social / Jornalista
Investigador Policial Civil, aposentado