Com uma televisão de 34 polegadas, uma antena instalada sobre um veículo e muita ousadia, o então presidente do SINDPOC, Crispiniano Daltro, transformou a Praça da Piedade em palco de informação, mobilização sindical e participação popular
No fim de maio de 2001, enquanto o país acompanhava de perto, em Brasília, o desfecho político envolvendo o senador Antônio Carlos Magalhães, Salvador viveu um dos episódios mais marcantes da história recente do movimento sindical dos policiais civis da Bahia.
Em meio à expectativa pelo julgamento e diante da informação de que a transmissão ao vivo não seria exibida pelas emissoras de sinal aberto na Bahia, o então presidente do Sindicato dos Policiais Civis da Bahia, SINDPOC, o investigador Crispiniano Daltro, decidiu encontrar uma alternativa para levar as imagens ao público.
A solução, para os padrões tecnológicos da época, era impossível, porém a ideia a testar foi simples, improvisada e, ao mesmo tempo, uma novidade e ousada.
Na Praça da Piedade, em frente à Secretaria de Segurança Pública, ele junto com seus colegas policiais montaram uma estrutura utilizando um cavalete de madeira com cerca de dois metros de altura, uma televisão de tubo de 34 polegadas e uma antena da Sky que ele trouxe de sua casa, instalada no teto de seu veículo. Ninguém imaginava que aquilo desse certo.
O carro de som do sindicato passou a anunciar a transmissão em tempo real. A iniciativa rapidamente chamou a atenção da população e transformou a praça em um grande ponto de concentração.
Uma transmissão que parou Salvador
A mobilização ganhou proporções inesperadas.
Segundo o registro histórico, a concentração de pessoas provocou inicialmente a interrupção do trânsito no centro da capital baiana e, posteriormente, um efeito cascata que atingiu diversas regiões de Salvador.
Curiosos, trabalhadores e moradores paravam para acompanhar, em plena praça pública, um acontecimento político que, naquele momento, parecia distante da população.
A televisão instalada de forma improvisada tornou-se o centro das atenções.
Mais do que acompanhar uma transmissão, a população presenciava uma iniciativa que buscava romper uma barreira de acesso à informação. O episódio acabou transformando a Praça da Piedade em uma espécie de arena pública, onde política, sindicalismo, segurança pública e participação popular se encontraram.
Tensão com a Polícia Militar
O movimento também provocou momentos de tensão.
De acordo com o registro, um coronel da Polícia Militar tentou intervir e chegou a questionar diretamente Crispiniano Daltro sobre as possíveis consequências daquela mobilização.
O clima de tensão e humor caminhou lado a lado quando a Polícia Militar tentou intervir. O coronel da PM, aos gritos com o presidente do sindicato, esbravejava: “Você é maluco? Você sabe o que vai acontecer com você?”. No entanto, a corporação recuou e não levou adiante a repressão.
Apesar do confronto verbal, a intervenção física não ocorreu.
Policiais civis formaram uma barreira ao redor do presidente do sindicato e permaneceram determinados a garantir a continuidade da transmissão. O respeito entre integrantes das forças de segurança e a própria dimensão da mobilização contribuíram para que a situação não evoluísse para uma repressão física.
O episódio revelou também a disposição dos policiais civis de assumir uma posição de protagonismo naquele momento político.
Sindicalismo, informação e resistência
A mobilização de 2001 ficou registrada como um episódio em que a ação sindical ultrapassou as pautas tradicionais da categoria.
A iniciativa liderada por Crispiniano Daltro colocou os policiais civis no centro de um acontecimento que mobilizou a capital baiana e levou para as ruas uma discussão que estava concentrada nos meios políticos e institucionais.
Com poucos recursos tecnológicos, mas utilizando criatividade e organização, o sindicato conseguiu transformar uma praça pública em espaço de acompanhamento de um acontecimento político de grande repercussão nacional.
O registro histórico destaca ainda que, enquanto outras organizações e centrais sindicais teriam recuado diante dos riscos políticos daquele momento, o SINDPOC decidiu manter a mobilização e assumir o protagonismo.
Um capítulo da memória sindical da Bahia
Passados os anos, aquele episódio permanece como parte da memória do sindicalismo policial baiano.
A imagem de uma televisão de tubo instalada em uma praça, sustentada por uma estrutura improvisada e conectada a uma antena instalada sobre um veículo, pode parecer simples atualmente. Em 2001, porém, a iniciativa representou uma maneira criativa de levar informação para milhares de pessoas.
O episódio também demonstra como movimentos sindicais podem ocupar espaços públicos e transformar acontecimentos políticos em momentos de participação popular.
A mobilização realizada na Praça da Piedade em 2001 ultrapassou a transmissão de um acontecimento político. Para os policiais civis envolvidos, aquele momento representou coragem, organização e disposição para enfrentar obstáculos em defesa do acesso à informação.
A atuação de Crispiniano Daltro e dos policiais civis que participaram daquele episódio permanece como um registro de uma época em que uma televisão, uma antena, um carro de som e a força da mobilização foram suficientes para transformar o centro de Salvador em palco de um acontecimento histórico.
Mais do que uma estrutura improvisada em uma praça, ficou o registro de uma ação que, segundo a memória sindical, ajudou a escrever um capítulo de luta, resistência e participação pública na história dos policiais civis da Bahia.na. E os policiais civis da Bahia escreveram mais uma página de sua história sindical.