ARTICULISTAS Momento de parar
QUANDO O COLEGA VIRA INIMIGO
Quando as divergências políticas ultrapassam o debate e começam a destruir a convivência, a confiança e a fraternidade entre profissionais. pór JORGE ARAÚJO PEREIRA
08/09/2026 14h17
Por: Carlos Nascimento Fonte: por JORGE ARAÚJO PEREIRA

Jorge Araújo Pereira

Investigador de Polícia e Bacharel em Comunicação/Jornalista.

Tenho observado, com muita preocupação, um fenômeno que ultrapassou os limites da política e chegou às relações entre colegas de profissão: pessoas que, durante muitos anos, conviveram, trabalharam juntas, dividiram dificuldades, conquistas e até momentos de amizade passaram, de repente, a se enxergar como adversárias.

E, em alguns casos, como inimigas.

Não estou falando aqui de uma simples divergência política. Divergir é legítimo. Pensar diferente faz parte da democracia. O problema começa quando a opinião política passa a determinar o valor que atribuímos ao outro.

O colega deixa de ser avaliado pelo seu caráter, pela sua história, pela sua competência e pela solidariedade que demonstrou ao longo da vida profissional. Passa a ser julgado pelo candidato em quem vota, pelo partido que apoia ou pela ideologia que defende.

É nesse momento que alguma coisa muito séria começa a acontecer.

O colega deixa de ser colega.

Ele passa a ser “do outro lado”.

E, quando isso acontece, a convivência profissional começa a ser substituída pela desconfiança. Conversas que antes eram naturais passam a ser evitadas. A amizade dá lugar à desconfiança, o respeito é substituído pela hostilidade e até pequenas divergências passam a ser interpretadas como ataques pessoais.

O ambiente profissional, que deveria ser pautado pela união em torno de objetivos comuns, transforma-se em um espaço de disputas e divisões.

É preciso lembrar que, independentemente de nossas escolhas políticas, continuamos pertencendo à mesma categoria profissional. Enfrentamos dificuldades semelhantes, cobramos melhores condições de trabalho, buscamos reconhecimento e, muitas vezes, colocamos a própria segurança em risco no exercício da profissão.

Nenhum partido político estará ao nosso lado em uma ocorrência. Nenhuma ideologia irá dividir conosco os riscos de uma atividade profissional. É o colega que estará ali.

Por isso, transformar diferenças políticas em rompimento de relações é permitir que a política destrua algo que levou anos para ser construído: a confiança entre aqueles que compartilham a mesma profissão.

Não precisamos pensar da mesma maneira para nos respeitarmos.

Não precisamos votar no mesmo candidato para reconhecermos a competência, a história e o caráter de um colega.

Não precisamos concordar em tudo para continuarmos sendo parceiros.

A democracia não deveria nos ensinar a odiar quem pensa diferente. Deveria nos ensinar justamente o contrário: a conviver com as diferenças sem perder a capacidade de dialogar.

É natural que existam grupos, correntes de pensamento e posições políticas distintas dentro de qualquer categoria profissional. Isso faz parte da liberdade de expressão e do próprio processo democrático.

O que não podemos permitir é que essas diferenças sejam utilizadas para destruir a fraternidade construída ao longo de anos.

Porque, quando o colega vira inimigo por causa de uma escolha política, todos perdemos.

Perde o profissional, perde a categoria e perde, principalmente, a capacidade de união para enfrentar os problemas que realmente importam.

Talvez seja o momento de parar, respirar e refletir sobre o caminho que estamos tomando.

A política passa. Os governos mudam. Os partidos mudam. Os candidatos vêm e vão. As eleições terminam.

Mas os colegas continuam.

Continuam aqueles com quem dividimos plantões, ocorrências, dificuldades, conquistas, preocupações e histórias que fazem parte da nossa trajetória profissional.

Que possamos aprender a separar o adversário político do colega de profissão. Que possamos discordar sem desrespeitar, debater sem ofender e defender nossas convicções sem transformar o outro em inimigo.

No final das contas, talvez a maior vitória não seja fazer o colega pensar como nós.

Talvez seja conseguir continuar chamando de colega aquele que pensa diferente.