Um novo episódio de violência ocupou o noticiário sobre universidades públicas na última semana. O caso aconteceu no IFICS, da UFRJ, onde um aluno do curso de História, Diego Araújo, foi convidado a sair da sala por trajar uma camisa da banda inglesa Death in June, conhecida por fazer fazer referências estéticas ao nazismo, ainda que de forma ambígua. Abordado pelo estudante de Direito Deivid Lima, que teria lhe indagado o motivo de usar indumentária, no caminho para a direção do Instituto, Diego agarrou os cabelos do seu contraditor, que é um estudante negro e PcD, e uma pancadaria se iniciou.
O episódio narrado é parte das versões que se pode acessar em matérias de jornais, entrevistas e cortes nas redes sociais. Em imagens que não foram levadas para a grande imprensa, Deivid, que teria sido chamado de “macaco” e sofrido ameaça de morte, é puxado pelo cabelo e levado ao chão. Depois do confronto, Diego sai andando e sorrindo, pronto para dar entrevistas para jornalistas que posam de isentos, como Pedro Doria, do Canal Meio.
Não é de hoje que indivíduos de extrema direita causam confusão na universidade. Há duas semanas um deputado do PL esteve na FACOM/UFBA arrancando cartazes e dirigindo ameaças aos estudantes e ao diretor da unidade, Washington Filho, tudo para promover cortes, gerar engajamento e conseguir votos. Mas a extrema direita avança de muitas formas, inclusive de forma sorrateira, por vezes usando o artifício de confundir a opinião pública com apitos de cachorro e ambiguidade, como ocorreu na UFRJ.
Entre os muitos pontos lamentáveis dessa história, a rapidez com conhecidos personagens da imprensa e das redes sociais assumiram um lado. Jornalistas e influenciadores concederam espaço à versão de Diego, sem dar ouvidos ao outro lado da história ou fazer uma mínima apuração. A Folha de S. Paulo, por exemplo, chegou a entrevistar o aluno de História, que disse não ser nazista, mas “um estudioso do tema” que não compactua com ideais de extrema direita. Na matéria o sujeito que usava camisa com a Totenkopf da SS se diz de “esquerda marxista”.
Sem que se saiba o porquê de alguém supostamente de esquerda ter “apanhado” dos seus “companheiros”, o tribunal de isentões não perdeu tempo: condenou os “malvados esquerdistas” com platitudes, como “fascismo de esquerda”, “estudantes que agiram como nazistas”, “ovos da serpente da extrema esquerda”, entre outras bobagens.
Frente ao linchamento que a imprensa vem promovendo contra os estudantes que expulsaram o neonazista da UFRJ, uma “Nota antifascista em solidariedade aos estudantes do IFICS/IH”, assinada por docentes e técnicos da UFRJ e de outras instituições está circulando.
É preciso dar um basta às agressões da extrema direita. É preciso também denunciar os linchadores da imprensa e da internet, que se postulam isentos, mas não perdem a oportunidade de assumir seu lado na história.
Sobre o autor:
*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.
Contato: zacasenajr@uol.com.br
📢 *COLUNA DO AUTOR:*
Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 04.09.2026.