ARTICULISTAS CONVITE Á REFLEXÃO
O INVISÍVEL TAMBÉM PRECISA DO SEU LUGAR
Uma reflexão sobre os trabalhadores que passam despercebidos, mas são essenciais para manter a ordem, o funcionamento dos espaços e o sustento de muitas famílias. por CRISPINIANO DALTRO
27/08/2026 15h10
Por: Carlos Nascimento Fonte: por CRISPINIANO DALTRO

Uma reflexão sobre os trabalhadores que passam despercebidos, mas são essenciais para manter a ordem, o funcionamento dos espaços e o sustento de muitas famílias.

Uma coisa que muito me incomoda são as cenas que vejo, todos os dias, nas praças de alimentação dos shoppings. Na rotina desta vida acelerada, geralmente damos uma parada para fazer um lanche, almoçar ou ter uma boa prosa. Ao terminarmos, porém, quase como robôs, sequer prestamos atenção quando alguém passa recolhendo as bandejas que deixamos para trás.

São os trabalhadores invisíveis em ação.

São os invisíveis que recolhem a sujeira: pratos, copos, talheres, embalagens e toda a bagunça deixada após uma refeição. São os invisíveis que circulam discretamente entre as mesas, evitando que o ambiente se transforme rapidamente em desordem.

Praça de alimentação e trabalhador

É uma rotina tão comum, uma cena tão repetida que, mesmo assim, quase ninguém percebe a presença e a importância desses profissionais. Basta imaginar uma praça de alimentação sem eles para entender o que aconteceria: seria uma verdadeira bagunça.

Daí porque sempre chamo a atenção para um detalhe que merece reflexão.

Há muitos anos, quando nem sonhávamos com celulares, tablets e notebooks, muito menos com os atuais robôs e outras tecnologias, eu lia uma daquelas revistas esquecidas em um banco de rodoviária. No rodapé de uma matéria, encontrei algo que me chamou a atenção sobre trabalhadores e determinadas funções que, à época, sequer pareciam ter a devida visibilidade. Foi então que passei a chamá-los de “os invisíveis”.

A história contava que um taxista na cidade de Nova York, há mais de 30 anos, ao chegar a um hotel e ver uma passageira desembarcar, imediatamente pegou suas malas e as levou até o balcão da recepção. Até aí, aparentemente, uma atitude normal.

Entretanto, o sindicato dos carregadores apresentou uma queixa contra o taxista por ele ter exercido uma função que pertencia aos funcionários do hotel, pedindo, inclusive, reparação por danos.

Confesso que, por um momento, achei aquilo um exagero. Mas, pensando melhor, passei a considerar interessante aquela postura.

A história que provoca a reflexão.

Foi a partir daí que comecei a prestar mais atenção às coisas e às pessoas que, aparentemente, são tratadas como seres invisíveis ao meu redor. Passei a enxergar tudo com outras lentes.

E, assim, comecei a observar mais.

Notei, por exemplo, que, nas praças de alimentação, muitas pessoas, ao terminar a refeição, pegam a bandeja e caminham até o local indicado para devolvê-la. Normalmente, em pontos estratégicos, há uma seta mostrando onde deixar a bandeja e, logo abaixo, um espaço para jogar os resíduos.

Ora, pensei: nada demais. É um gesto considerado educado, simpático e correto.

Mas então me veio à lembrança a história do taxista. E me perguntei:

Será que já paramos para olhar essa situação por outra lente?

A bandeja e o ponto central do debate.

Se todos os frequentadores passarem a realizar, gratuitamente, uma atividade que hoje é desempenhada por trabalhadores contratados, será que, um dia, a administração desses espaços não poderá concluir que precisa de menos funcionários?

Primeiro, reduz-se um profissional.

Depois, outro.

Aos poucos, uma função que empregava dezenas de pessoas poderia passar a ser considerada desnecessária.

E quem perde não é apenas o trabalhador. Perde também a sociedade, quando postos de trabalho desaparecem em nome da economia e da redução de custos.

Sempre que vejo alguém se dirigindo ao local de devolução da bandeja, às vezes peço, educadamente, que pense sobre isso. Explico o meu ponto de vista.

Muitas pessoas se surpreendem. Dizem que nunca haviam pensado daquela forma e passam a entender que aquele gesto, aparentemente simples, também pode ter consequências.

ESTACIONAMENTO DOS SUPERMERCADOS

Trabalhador recolhendo carrinhos.

A mesma situação acontece nos supermercados.

Depois de levar as compras até o carro, muitos consumidores fazem questão de devolver o carrinho ao local de onde o retiraram. Como disse, isso pode parecer um ato de colaboração e educação.

Mas também existem os trabalhadores invisíveis encarregados de recolher esses carrinhos no estacionamento, organizá-los e devolvê-los ao local correto.

É preciso lembrar que existem serviços que, para nós, parecem pequenos, mas representam o trabalho e o sustento de alguém.

Quero deixar claro que o objetivo desta reflexão não é fazer uma campanha contra a educação e os bons modos. Também não é um convite à bagunça, à falta de respeito, à sujeira ou a qualquer coisa parecida.

Nosso objetivo é fazer um convite para enxergarmos quem normalmente ninguém vê.

Seja respeitoso. Não faça bagunça. Não espalhe lixo de propósito. Não trate mal quem está trabalhando, principalmente aqueles que parecem invisíveis aos olhos da maioria.

É apenas uma questão de lembrar que existem pessoas contratadas justamente para organizar, recolher e manter aqueles espaços funcionando.

Antes de fazer gratuitamente o trabalho de alguém, pare por alguns segundos e reflita:

Será que estou apenas sendo educado ou estou, sem perceber, ajudando a tornar esse trabalhador ainda mais invisível?

Porque, enquanto alguns enxergam apenas uma bandeja para devolver ou um carrinho para guardar, outros enxergam ali uma jornada de trabalho e, muitas vezes, o sustento de uma família.

Respeite o trabalhador.

Talvez o verdadeiro gesto de consciência não seja simplesmente fazer tudo sozinho, mas compreender que, por trás de cada tarefa, existe uma pessoa.

Pessoas que recolhem, limpam, organizam e mantêm funcionando lugares que todos nós frequentamos.

São trabalhadores que raramente recebem atenção, mas cuja ausência seria percebida imediatamente.

A bandeja sobre a mesa, o copo vazio, o prato utilizado ou o carrinho no estacionamento podem parecer apenas detalhes. Para quem depende daquele trabalho, porém, representam muito mais.

Não se trata de defender a desordem.

Trata-se de defender a visibilidade e a dignidade de quem trabalha.

Então, façamos um favor a esses trabalhadores invisíveis: não deixemos que sua importância desapareça diante dos nossos olhos.

Porque, enquanto alguns enxergam apenas uma bandeja sobre uma mesa ou um carrinho no estacionamento, outros enxergam ali uma jornada de trabalho, uma profissão e, muitas vezes, o sustento de uma família.

O invisível também precisa do seu lugar.

por Crispiniano Daltro (*)