ARTICULISTAS O dia do historiador
Mais Nabucos, menos Lafayettes
(Jornal A Tarde, Salvador, 21/08/2026) por Carlos Zacarias de Sena Júnior (Professor do Departamento de História da UFBA)
23/08/2026 13h21
Por: Carlos Nascimento Fonte: por Carlos Zacarias de Sena Júnior

Na última quarta, comemorou-se o dia do historiador. A data foi criada em 2009 em homenagem ao líder abolicionista Joaquim Nabuco. Nascido no Recife em 19 de agosto de 1849, Joaquim Nabuco se notabilizou pelo engajamento político na luta contra a escravidão no Brasil e também pela vasta obra, na qual se destacam “O abolicionismo”, publicado em 1883, “Minha formação”, de 1900, e “Um estadista do império”, biografia que escreveu sobre seu pai, o baiano Nabuco de Araújo, publicada entre 1897-1899.

Na última semana, uma comissão da Câmara dos Deputados encarregada de preparar publicação sobre o bicentenário da Independência do Brasil, presidida por Lafayette de Andrada (PL-MG), vetou o uso do termo “ditadura militar” adotado pelos historiadores. Também recomendou a suavização de passagens que se referiam à tortura praticada durante a ditadura, indicou alterações em trecho que aborda direitos indígenas e marco temporal, e recomendou mudanças relacionadas à comparação feita entre as independência do Brasil e do Haiti e ainda tentou suprimir referência feita ao samba-enredo da Mangueira de 2019 “Histórias para ninar gente grande”.

Em nota de repúdio sobre as intervenções e a tentativa de censura promovida pela Câmara, a Associação Nacional de História (ANPUH-Brasil) destacou que a “liberdade de pesquisa, acadêmica e de expressão são fundamentais para o trabalho historiográfico” e “que as alterações propostas configuram uma ação de censura motivada por negacionismo histórico institucionalizado”.

Reunindo mais de 50 historiadores e historiadoras, que publicaram entre 2022 e 2023 nas revistas “Almanack” e da “Sociedade Brasileira de Estudos do Oitocentes (SEO), o empreendimento, organizado por André Machado (Unifesp), Andréia Slemian (Unifesp) e Claudia Chaves (UFOP), seria publicado pela Edições Câmara, mas foi, lamentavelmente, cancelado.

Participante da coletânea, com o artigo “A Independência e o protagonismo popular”, o historiador Sérgio Guerra Filho, da UFRB, afirmou “o que incomodou, como conjunto, é que os textos são críticos ao mito do 7 de Setembro. Os textos falavam de guerras em várias regiões, de protagonismo popular, feminino, negro, indígena... E isso incomoda essa elite aristocrática porque desvela que nossa história é cheia de lutas e de conflitos”.

Mencionado nesta coluna pela passagem do dia do Historiador, Joaquim Nabuco foi também deputado. Homenageado por Gilberto Freyre na Câmara em 1947, Joaquim Nabuco foi citado como alguém que nos lembra que a política, os parlamentos e os congressos não são inutilidades dispendiosas.

Nabuco é gigante em qualquer circunstância, ainda mais se comparado a gente da estatura do tal Lafayette de Andrada que torna o parlamento percebido como espaço de nulidades. Em outubro teremos novamente a chance de mudar, restando a esperança de sejamos capazes de eleger mais Nabucos e menos Lafayattes.

Sobre o autor:
*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.

Contato: zacasenajr@uol.com.br

Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 10.07.2026.

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