A Bahia se despede, aos 98 anos, de Aristeu Barreto de Almeida, ex-deputado estadual, economista, professor e personagem de destaque na vida política e intelectual do estado. Com uma trajetória que atravessou diferentes períodos da história brasileira, Aristeu deixou sua marca tanto no Parlamento baiano quanto no debate sobre economia, desenvolvimento e planejamento.
Nascido em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, em 22 de novembro de 1927, Aristeu Almeida dedicou grande parte da vida à economia, à educação e à política. Formou-se em Ciências Sociais pela Faculdade Nacional de Filosofia, em 1955, e posteriormente em Economia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1962. Também se especializou em estudos relacionados à economia regional e ao planejamento econômico.
Sua carreira profissional passou por instituições importantes, entre elas o Banco do Nordeste do Brasil e a Comissão de Planejamento Econômico do Estado da Bahia. Também exerceu atividades no setor petroquímico e atuou como professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFBA por mais de três décadas. Foi ainda assessor econômico da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB).
A vida pública de Aristeu Almeida não pode ser compreendida apenas a partir de sua passagem pela Assembleia Legislativa. Sua formação política esteve ligada a uma tradição trabalhista que tinha entre suas principais referências o ex-governador do Rio Grande do Sul, ex-deputado federal e líder político Leonel de Moura Brizola.
Aristeu tinha suas ligações políticas profundamente enraizadas no trabalhismo brasileiro e se tornou uma figura proeminente e fiel do antigo Partido Democrático Trabalhista (PDT), legenda que, sob a liderança de Brizola, procurou manter viva uma tradição política identificada com a defesa da educação pública, dos direitos dos trabalhadores, da soberania nacional e de um projeto de desenvolvimento econômico com forte participação do Estado.
Essa identidade política acompanhou sua trajetória por muitos anos e ajudou a definir sua atuação no cenário baiano. Mais do que uma filiação partidária, o trabalhismo representava para Aristeu uma concepção de Estado e de desenvolvimento que dialogava diretamente com sua formação como economista e professor.
Sua fidelidade às ideias trabalhistas fez dele uma referência para uma geração de militantes e dirigentes políticos que encontrava no PDT uma continuidade de antigas bandeiras do trabalhismo brasileiro.
Antes de sua identificação mais conhecida com o campo trabalhista, Aristeu Almeida teve uma passagem pelo Legislativo baiano. Ele foi eleito deputado estadual pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) para a legislatura de 1975 a 1979.
Na Assembleia Legislativa da Bahia, participou da Comissão de Finanças e Orçamento, onde exerceu a vice-presidência, além de integrar, como suplente, a Comissão de Educação, Saúde e Serviços Públicos. Em 1977, ocupou também a vice-liderança da Minoria.
A experiência parlamentar esteve diretamente relacionada à sua formação técnica. Economista e professor, Aristeu levou para o debate político preocupações relacionadas às finanças públicas, ao planejamento e ao desenvolvimento econômico.
O período de sua passagem pelo Parlamento também foi marcado por um dos momentos mais delicados da história política brasileira. O país ainda vivia sob o regime militar, e o MDB constituía a principal força de oposição institucional.
A atuação de Aristeu não se restringiu à política partidária. Durante décadas, ele esteve ligado ao ensino e à produção intelectual.
Na UFBA, exerceu o magistério na Faculdade de Ciências Econômicas entre 1965 e 1997, contribuindo para a formação de várias gerações de economistas.
Também produziu trabalhos sobre questões econômicas e sociais. Entre suas publicações está Reforma Agrária sem Atritos. Outro trabalho de relevância foi Rômulo Almeida, o Construtor de Sonhos, dedicado à trajetória de seu irmão Rômulo Almeida, importante economista baiano e um dos formuladores de projetos de desenvolvimento econômico do Brasil.
A relação com Rômulo Almeida também reforçou a presença de Aristeu em círculos de discussão sobre planejamento, economia e desenvolvimento regional.
Mesmo depois de deixar o Parlamento, Aristeu Almeida permaneceu ligado à vida pública e ao debate intelectual. Em 2014, participou de uma solenidade na Assembleia Legislativa da Bahia durante as comemorações do centenário de nascimento de Rômulo Almeida.
Naquele período, presidia o Instituto Rômulo Almeida de Altos Estudos, mantendo ativa a preocupação com a preservação da memória e do pensamento econômico produzido na Bahia.
Sua longevidade permitiu que acompanhasse profundas transformações políticas e econômicas do Brasil. Viveu a Era Vargas, a redemocratização de 1945, o golpe de 1964, o período da ditadura militar, a abertura política, a redemocratização e a consolidação da democracia brasileira.
Ao longo de quase um século, também testemunhou as mudanças pelas quais passou o próprio trabalhismo brasileiro, desde suas raízes históricas até a liderança de Leonel Brizola e a organização do PDT no período de redemocratização.
A trajetória de Aristeu Almeida foi marcada por uma característica que atravessou suas diferentes atividades: a coerência entre sua formação intelectual e sua atuação pública.
Economista, professor, parlamentar e militante político, ele construiu sua trajetória a partir de convicções que envolviam o papel do Estado, a importância da educação e a necessidade de planejamento para o desenvolvimento econômico e social.
Sua ligação com o trabalhismo e com o PDT de Leonel Brizola tornou-se parte importante de sua identidade política. Em uma época de rápidas transformações no cenário partidário brasileiro, Aristeu permaneceu identificado com uma corrente política que tinha na educação, na soberania nacional, na valorização do trabalho e no desenvolvimento do país algumas de suas principais bandeiras.
Aos 98 anos, Aristeu Almeida encerra uma trajetória que se confunde com importantes capítulos da história política, econômica e intelectual da Bahia.
Sua passagem pela Assembleia Legislativa, sua carreira como professor e economista e, posteriormente, sua identificação com o trabalhismo e com o PDT de Leonel Brizola compõem o retrato de um homem que esteve ligado ao debate público por muitas décadas.
Aristeu pertenceu a uma geração de políticos e intelectuais para quem a política não se limitava à disputa eleitoral. Havia, em sua trajetória, uma preocupação permanente com projetos de desenvolvimento, educação, economia e soberania nacional.
Sua morte deixa uma lacuna entre os remanescentes de uma geração que viveu intensamente as transformações do Brasil no século XX e que ajudou a construir, cada qual a seu modo, a história política da Bahia.
Aos 98 anos, Aristeu Almeida deixa como legado não apenas o mandato parlamentar que exerceu, mas também uma longa vida dedicada ao pensamento econômico, à educação e à política, permanecendo na memória de seus companheiros como um homem de convicções e de fidelidade às ideias que abraçou.