Na Bahia, quem carrega a investigação nas costas recebe o mínimo. Investigadores e escrivães da Polícia Civil trabalham com carga excessiva, risco real, plantões, cumprimento de mandados e atendimento direto à população. E a contrapartida é um salário que há anos não acompanha nem a inflação, muito menos a responsabilidade do cargo.
Enquanto outras carreiras do Estado tiveram recomposições e avanços, a categoria ficou para trás. O vencimento inicial não paga uma vida digna em Salvador e muito menos sustenta quem precisa se deslocar pelo interior, bancar combustível, colete, curso e ainda arcar com a pressão psicológica do trabalho policial. Muitos terminam o mês fazendo bico ou contando moeda.
E o pior não é só o governo. É a falta de união dentro da própria casa.
Há anos as pautas salariais são apresentadas e esquecidas. Assembleias vazias, categorias divididas, medo de retaliação e discurso de "não vai mudar mesmo". O comportamento covarde de esperar que os outros lutem enquanto uma parte se cala para não se indispor virou rotina. Quando aparece uma mobilização séria, falta quórum. Quando falta quórum, o governo entende o recado: pode empurrar com a barriga.
Sem pressão, sem greve, sem incômodo político, o resultado é previsível. O Estado paga pouco porque sabe que pode pagar pouco. E os policiais terminam recebendo exatamente o que merecem diante da omissão coletiva: o salário que aceitaram calados.
Enquanto investigador e escrivão não entenderem que direito não se pede, se arranca, vão continuar sendo tratados como despesa e não como peça central da segurança pública. A desvalorização não cai do céu. Ela é construída na hora em que a categoria prefere o silêncio ao confronto.
Até quando vão aceitar receber menos por fazer mais?
Sobre o autor:
(*) Luiz Ferreira é articulista e analista político, com atuação voltada à leitura crítica da história política brasileira contemporânea. Acompanha de forma permanente os movimentos ideológicos, as relações de poder e os impactos das decisões governamentais na vida da sociedade. Seus textos priorizam a análise histórica, o debate público e a formação de opinião, com foco no interesse do cidadão comum.
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