ARTICULISTAS “Apagão docente”
É preciso cuidar de quem cuida dos nossos filhos
Publicado no Jornal A Tarde, Salvador, edição de 10/07/2026, por Carlos Zacarias de Sena Júnior (Professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia)
10/07/2026 11h48
Por: Carlos Nascimento Fonte: por Carlos Zacarias de Sena Júnior

Comovente o relato da professora Michele Ramos, publicado em O Globo, no dia 7. A docente, que trabalha na rede municipal de São José dos Campos, teve um vídeo viralizado há uma semana após descobrir que um aluno colocara vidro em seu copo de água. Aos prantos, Michele gravou o desabafo, que tocou fundo em um país adoecido e tomado de ódio pelo outro.

Relato da professora Michele Ramos, publicado em O Globo

Não é de hoje que a profissão de professor deixou de ser atrativa. Dados do Inep apontam risco de “apagão docente”, detectando como iminente a falta de profissionais com formação adequada em diversas regiões. Tal informação não passou despercebida, mas afora ações pontuais, como o programa “Mais Professores” do governo Lula, pouco se tem feito para se evitar o pior e não parece haver luz no fim do túnel para educadores, vilipendiados por quem deveria lhes oferecer respeito.

Professores já foram respeitados no Brasil e não estamos longe do tempo em que os mestres eram figuras sacralizadas, ainda que poucas famílias manifestassem desejo em formar filhos para o magistério. Nos últimos anos, contudo, a situação mudou e quase nenhum respeito a sociedade dedica a quem trabalha para formar as novas gerações. O resultado é a recusa dos mais jovens em procurar as licenciaturas, o que pode determinar o “apagão” de que se fala, inviabilizando qualquer projeto de futuro para o país.

Contribuem para isso posturas como o do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que em audiência pública na Comissão de Educação, ao defender o direito à educação domiciliar (homeschooling), afirmou que as famílias não deveriam ser obrigadas a colocar seus filhos “na mão de um desconhecido”. Não há notícias de que o deputado alguma vez tenha questionado o fato de que muitas vezes precisamos entregar nossos corpos aos “desconhecidos” profissionais de saúde, mas o parlamentar não se furtou a atacar os professores.

São atitudes como a de Nikolas que estimulam o ódio aos educadores e tornam vulneráveis a professoras Michele e diretora Aline Nogueira. Esta última, em novembro passado, recebeu policiais armados em sua escola, na capital paulista, lhe questionando o fato de uma criança ter desenhado Iansã. Aline se deu ao trabalho de explicar aos agentes que a atividade era parte de um projeto elaborado nos termos da Lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena nas escolas, mas não teve jeito. O caso foi parar na delegacia e Aline pediu afastamento médico após se sentir ameaçada após o constrangimento e assédio.

Levantamento do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (ONVE), da UFF, aponta que 90% dos docentes das redes pública e privada do Brasil já sofreram ou presenciaram casos de perseguição e/ou censura em sala de aula. Do jeito que a coisa vai, não vai restar quem queira se dedicar a profissão tão nobre, antes percebida como sacerdócio, hoje quase um martírio.

Sobre o autor:

*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.

Contato: zacasenajr@uol.com.br

Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 10.07.2026.

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