Uma das inovações que resultam dos dados produzidos colaborativamente pelo Fogo Cruzado é a possibilidade de compreender a fundo a dinâmica da violência armada nas cidades brasileiras. Veja o caso do Complexo do Nordeste de Amaralina, em Salvador. Entre 1º de janeiro e 22 de junho de 2026, registramos 29 tiroteios na região; pelo menos 41 pessoas foram baleadas. Esses números costumam vir com uma explicação pronta: os confrontos entre facções.
Não é o caso do Nordeste de Amaralina. Os dados do Fogo Cruzado indicam que, das 41 vítimas, 40 foram atingidas durante ações policiais. É o maior número que já registramos na região e faz do Complexo a área com mais pessoas baleadas em ações da polícia em Salvador e na região metropolitana neste ano.
E os conflitos entre facções? Desde 2022, não registramos um único tiroteio decorrente de disputa entre grupos armados no Complexo, formado pelos bairros Nordeste de Amaralina, Vale das Pedrinhas, Chapada do Rio Vermelho e Santa Cruz. Não há disputa pelo controle da área; ainda assim, é onde há mais baleados em ação policial em Salvador e RM. Se não há disputa, o que explica tantos tiros?
A série histórica ajuda a responder. De janeiro a junho de 2023, foram 19 pessoas baleadas naquelas localidades, 16 delas em ações policiais. Em 2024, oito, sendo seis em ações policiais. Em 2025, 18 baleados, 14 em ações policiais. Em 2026, o recorde de 41 pessoas. O número de vítimas oscila de um ano para outro, mas fica claro que as ações das forças de segurança são um dos motivadores da violência armada. Esse processo gera duas constatações mais visíveis.
Primeiro, por trás dos números, há trabalhadores. Adelmo Santos voltava do trabalho quando foi morto durante uma operação policial na região da Igrejinha. Deivisson Sanches, 36 anos, fazia uma corrida por aplicativo quando foi baleado e morto na mesma ação policial. Marcos Vinícius trabalhava como motoboy quando foi atingido durante uma operação no Vale das Pedrinhas e morreu 11 dias depois.
Segundo, há que se questionar se tantas ações policiais geraram algo mais do que um alto número de baleados. Impactaram o grupo armado? Serviram para retomada de áreas? Se o objetivo é enfrentar o crime organizado, é preciso investigar quem arma e financia os grupos, atacar o fluxo financeiro que os sustenta e identificar quem toma as decisões nessas estruturas.
Aparentemente, esta não é a prioridade das forças de segurança no momento. Os dados mostram que a escalada mais grave das operações veio depois da morte do cabo da Polícia Militar Glauber Rosa, 42 anos, baleado durante uma ronda na região em 3 de fevereiro. Em poucas horas, 11 pessoas foram mortas durante ações policiais. Salas de aula se esvaziaram, unidades de saúde suspenderam os atendimentos, ônibus sumiram das ruas. Este é o preço pago pela população, já que ele não é apenas medido por baleados.
Nada disso acontece num vácuo institucional. Em outubro de 2025, a Bahia publicou o PQUALI, o Plano de Atuação Qualificada de Agentes do Estado, que fixa a meta de reduzir a letalidade policial em 10% a cada semestre. Mas o Nordeste de Amaralina expõe a distância entre o protocolo genérico e a rua: com o maior número de pessoas baleadas em ações policiais já registrado na região, é inevitável perguntar o que está sendo feito para o plano sair da gaveta. Prometer segurança e produzir violência deixou de ser uma contradição e, pelo menos no Nordeste de Amaralina, virou escolha política.
(*) Tailane Muniz é repórter, especializada na cobertura de segurança pública; vencedora do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos (2024) com a reportagem Fincar o pé.
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