ARTICULISTAS Produtos prosaicos
Negócios à parte
“Ditaduras militares e os regimes fascistas foram coruptos em essência”. por Carlos Zacarias de Sena Júnior
30/05/2026 18h38
Por: Carlos Nascimento Fonte: por Carlos Zacarias de Sena Júnior

Que Dark Horse que nada, o grande ativo dos Bolsonaro está bem longe da cinebiografia e até mesmo da extensa prole de Zeros mamando nas tetas do erário. O grande negócio do Jair é comercializar produtos prosaicos, como joias, bijuterias, instrumentos musicais, roupas de cama, ração para animais, entre muitos outros. Reportagem do site Metrópoles do dia 25 trouxe a lista de nove produtos que foram licenciados pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) para serem comercializados com a marca que leva o nome da família.

A manobra do clã, que vem sendo liderada pela ex-primeira-dama Michelle, não é novidade. Antes de ser preso e condenado pela tentativa de golpe de Estado, o próprio Jair andava por aí promovendo capacete da marca “Bravo Grafeno”, descrito como “o capacete do presidente Jair Bolsonaro”. De propriedade do filho Zero Um (Flávio), agora presidenciável, e do próprio Jair, que aliás nunca usou capacete nas famigeradas motociatas, não se sabe se a indumentária tem alcançado sucesso comercial. Além dos capacetes, o clã Bolsonaro, notório pelo tino comercial no setor imobiliário, onde atua comprando imóveis com dinheiro vivo, já vendia perfumes, vinhos e bugigangas variadas para seu público.

O impulso da família no ramo dos negócios ganhou tração depois que Jair deixou a presidência e Michelle tomou a frente do empreendimento. Entre 2024 e 2025 a ex-primeira-dama, que é evangélica, mas não se faz de rogada quando se trata de ganhar dinheiro, chegou a apresentar ao INPI pedido de registro de cerca de 89 produtos, incluindo vestuário, bebidas alcoólicas e não alcoólicas, cigarros, armas de fogo e produtos de limpeza, a maioria abrigado em marcas que levam as iniciais da própria Michelle, como MB Cosméticos, MB Calçados e MB Acessórios, ou então Bolsonaro Mito e Bolsomito.

É difícil precisar quem inaugurou a moda de associar popularidade política a produtos comerciais. É certo, contudo, que, até aqui, somente personagens da extrema direita, como Trump, Bolsonaro e Milei, apenas para citar nomes conhecidos, têm utilizado o patrimônio conquistado nas urnas para ampliar o patrimônio pessoal, tanto registrando e comercializando produtos, quanto fazendo dinheiro no mercado financeiro com manobras diversas, inclusive com criptomoedas (vide a $Libra patrocinada pelo argentino).

Depois da celeuma em torno da contaminação dos detergentes Ypê, enquanto o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) promove sandálias de marca criada para concorrer com as tradicionais Havaianas, o escândalo Vorcaro-Dark Horse-Flávio Bolsonaro pode se deslocar do noticiário político para o econômico, uma vez que essa turma gosta mesmo é de dinheiro.

Por óbvio que as ditaduras militares e os regimes fascistas foram corruptos em essência, mas o indisfarçável desejo por dinheiro da extrema direita de hoje joga por terra qualquer eventual escrúpulo de consciência.

*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.

Contato: zacasenajr@uol.com.br

Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 29.05.2026.

 📢 *COLUNA DO AUTOR:* 

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