No xadrez você protege o rei a todo custo. Na vida do policial, o “rei” é a sociedade, e proteger às vezes significa se colocar na frente do perigo, sabendo que seu próprio rei pode cair sem que ninguém perceba.
Você precisa pensar cinco movimentos à frente, como um grande mestre, mas o tabuleiro não é de madeira. Ele é uma rua às 3 horas da manhã, uma ocorrência com adrenalina, um pai esperando em casa.
O paradoxo:
1. Controle vs. Caos: No xadrez, cada peça se move de um jeito previsível. Na rua, a mesma situação nunca se repete. Você treina pra ter precisão de bispo, mas vive o improviso de um jogo sem regra escrita.
2. Avançar recuando: O policial precisa ser forte pra conter, e sensível pra entender. Um movimento “forte” de torre pode quebrar a confiança. Um movimento “suave” de peão pode evitar uma guerra. Ganhar a partida, muitas vezes, é não precisar chegar ao xeque-mate.
3. Sacrifício obrigatório: No xadrez você sacrifica peças pra ganhar vantagem. Na vida policial, o sacrifício é tempo com a família, sono, paz. E o jogo nunca te diz se o sacrifício valeu a pena até muito depois.
4. O adversário invisível: Você estuda o adversário no tabuleiro. Na rua, o maior adversário às vezes é a dúvida: “Será que estou fazendo certo?” E diferente do xadrez, não dá pra pedir pra repetir a jogada.
O policial termina o dia como quem fecha um tabuleiro: cansado, com peças faltando, e com a sensação de que venceu e perdeu ao mesmo tempo. Porque proteger a vida é o único jogo em que empatar já é uma vitória.
O que muitos não enxergam é que diferente do xadrez, a atividade policial é essencialmente coletiva, onde uma peça depende da outra, o delegado depende do investigador, que depende do escrivão, que depende do perito, que cria uma interdependência sem limites e sem controle. Na vida policial o xeque-mate é para ser dado no crime, na bandidagem, pois ao contrário, todo o tabuleiro cai, toda a sociedade perde.
Não é justo em um trabalho coletivo, o bispo ganhar, ou ser mais importante que o cavalo, a torre se sentir melhor que o peão, afinal, todos dependem e precisam um do outro, para vencer juntos a partida. Já que no final dela, todas as peças irão, querendo ou não, para mesma caixa, fria e gélida do jogo da vida.
Bel Luiz Ferreira.
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