Na terça, 28, completam-se seis meses da Operação Contenção que aconteceu nos Complexos da Penha e do Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro. Foram 122 pessoas mortas, entre elas cinco policiais que participavam da ação. Na época, o governo estadual declarou que a operação havia sido planejada, que os resultados eram expressivos e que representava um avanço no combate ao crime organizado.
Passados seis meses, é hora de checar os dados do Fogo Cruzado antes e depois da operação para ver se ela realmente causou alguma mudança na área.
Na região da Penha e seu entorno, registramos 35 tiroteios nos seis meses que se seguiram à chacina. Nos seis meses anteriores à operação, foram 37. A violência armada na região não recuou. Registramos 18 pessoas baleadas no período pós-operação, contra 14 no período anterior. Seis mortos contra cinco. Doze feridos contra nove.
Esses números não são uma surpresa para quem acompanha a série histórica. Documentamos esse padrão repetidamente: uma grande operação policial, um saldo elevado de mortos, trabalhadores na linha de tiro, aulas e serviços básicos suspensos, uma declaração de sucesso e, depois, a volta à normalidade, com a mesma geografia da violência, os mesmos grupos no controle dos territórios. O Comando Vermelho não foi desarticulado em outubro. Os territórios que ele controla no Complexo da Penha seguem sob seu domínio. O principal alvo nominado na época, apontado como inimigo número um, permanece foragido. E depois dele, já surgiram outros "inimigos número um".
Não é um problema de execução de uma operação específica. É um problema de modelo. Megaoperações policiais geram alto custo humano e financeiro imediato, produzem imagens e discursos políticos e entregam resultado próximo de zero em termos de desarticulação real do crime organizado. Dos agentes de segurança que participaram da ação, somente 504 usaram câmeras corporais. Após a entrega dos 9 mil vídeos, a Polícia Federal estima que a análise das imagens levará três anos para ser concluída. Enquanto as 122 mortes de outubro ainda não foram completamente investigadas, o debate público já avançou para a próxima promessa.
O padrão tem raízes profundas. As três maiores chacinas policiais da história do estado do Rio aconteceram nos últimos anos: Jacarezinho, em 2021; Vila Cruzeiro, em 2022; e agora a Penha e Alemão. Cada uma foi apresentada, à época, como um ponto de inflexão. Nenhuma alterou a trajetória do crime organizado. O Comando Vermelho ampliou seu domínio territorial em 89,2% entre 2007 e 2024 e hoje exerce controle sobre áreas onde vivem 1,6 milhão de pessoas na região metropolitana do Rio, de acordo com dados do Mapa Histórico dos Grupos Armados.
A Operação Contenção foi apresentada como resposta. Os dados mostram que não foi. Porque foi mais uma ação sem planejamento estratégico, sem objetivos verificáveis e sem mecanismos de avaliação posterior.
Em 2025, 39% dos tiroteios no Grande Rio aconteceram durante operações policiais, com 936 pessoas baleadas e 460 mortas. A política de confronto não recuperou nenhum território. Mas produziu 61 vítimas de balas perdidas e afetou a rotina de 565 escolas.
Seis meses depois da maior chacina da história do país, a pergunta que fica é simples: o que mudou na política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro? Quais metas foram estabelecidas? Quais indicadores estão sendo monitorados? Que responsabilização houve pelos 122 mortos?
Essas perguntas não têm resposta pública disponível. E enquanto não tiverem, a pior operação policial continuará sendo sempre a próxima.
Carlos Nhanga é jornalista, com atuação em comunicação de dados, finalista do Prêmio Claudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados.
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