Lula perdeu no senado porque lhe faltou ousadia (Jornal A Tarde, 01/05/2026)
Carlos Zacarias de Sena Júnior (Professor do Departamento de História)
Indicado por Lula para o STF, Jorge Messias foi rejeitado. Por 42 votos a 34, senadores votaram contra mais um homem branco, que na sabatina mostrou ser espelho dos parlamentares, com pequenas nuances. Evangélico como André Mendonça, Messias reafirmou sua fé, disse ser contra o aborto e driblou perguntas embaraçosas sobre a tentativa de golpe e o 8 de janeiro. Nem assim foi aceito.
Não há como minimizar o acontecido. Liderados por Davi Alcolumbre (União-AP), senadores mandaram recado ao presidente Lula e ao STF. Também criaram uma crise ao impor a mais acachapante derrota ao governo desde a posse. Algo parecido só tinha ocorrido em 1894, quando o marechal Floriano Peixoto teve cinco nomes rejeitados. Conhecido como “Marechal de Ferro”, Floriano esmagou revoltas, mas não conseguiu evitar derrota diante de senadores endinheirados, encastelados em oligarquias regionais.
De Floriano, Lula não tem nada. O atual presidente nunca se dispôs a esmagar revolta, muito menos de congressistas, igualmente endinheirados, como há 132 anos. Ao contrário, prefere negociar com revoltosos, ofertando-lhes cafezinho, tapinhas nas costas e recursos na forma de emendas. Umas vezes dá certo, outras nem tanto.
De mãos atadas pelo legado deixado pelo antecessor, que negociou com o Congresso o sequestro do orçamento, Lula segue sendo negociador exímio, governante de fino trato, democrata e estadista, isso é inquestionável. Passará para a história com a estatura de um Getúlio, maior que JK e gigante diante do nanico laureado marechal.
Mas é evidente que há problemas. Um deles é a incapacidade de Lula de desistir de conciliar com inimigos do povo. Jornais disseram que após da rejeição de Messias o Planalto deu como finda a relação com Alcolumbre. Tenho dúvidas. Passadas algumas semanas, Lula voltará a negociar com o presidente do senado, com os mimos de sempre. Não se pode dizer que está, de todo, errado. Muitos lembrarão que não fosse Lula, que nos livrou de uma virtual ditadura bolsonarista, esta coluna talvez não mais existisse, quiçá, o colunista.
O fato é que Lula perdeu, e, mais uma vez, sem entrar em campo. Afinal não foi um radical de esquerda o indicado. Tampouco uma mulher negra de notório saber jurídico, como muitos desejavam, inclusive o historiador que tece estas linhas. Fosse uma jurista negra, dificilmente os senadores teriam a pachorra de rejeitá-la, simplesmente por medo de serem acusados de misóginos e racistas.
A derrota de Lula e de seu homem branco e evangélico, que teria mais de 30 anos de corte para militar contra o aborto, não é apenas do governo, mas do país, das instituições e da conciliação que nos arrasta ao pântano do possibilismo. Lula podia nos ajudar a sonhar com o impossível, mesmo que precisasse esmagar revoltas do andar de cima. Um bocadinho de ousadia não faria mal aos brasileiros, nem mesmo aos viciados em acordos, como Lula e o PT.
*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.
Contato: zacasenajr@uol.com.br
Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 01.05.2026.
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