POLÍCIA CIVIL Assédios na Polícia
Pesquisa revela que assédios são comuns dentro da polícia científica de São Paulo
Por meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP), sob gestão do delegado Nico Gonçalves, respondeu que a Superintendência da Polícia Técnico-Científica repudia qualquer conduta incompatível com os princípios que regem a administração pública.
03/03/2026 10h02
Por: Carlos Nascimento Fonte: Pesquisa MPSP

Pesquisa revela que assédios são comuns dentro da polícia científica de São Paulo
Ao embarcar na viatura para mais um dia de trabalho na polícia científica de São Paulo, a perita Milena (nome fictício), de 40 anos, sentiu fortes dores no peito. O colega de perícia, então, desviou da rota em que eles fariam a coleta de provas e levou Milena ao pronto socorro mais próximo. A equipe médica, por fim, fez o diagnóstico: crise de pânico.

A medicação passada para conter a crise incluiu o diazepam – que tem como efeito colateral a sonolência -, além da orientação para que ela ficasse em repouso. Por medo de sofrer algum tipo de retaliação, Milena optou somente por descansar na sede da Polícia Técnico-Científica e retomar as atividades periciais mais tarde. No entanto, sua chefe a encontrou e, mesmo sabendo que a servidora havia passado por uma crise, ordenou: você tem local para atender. Pode ir!. Eu fui chapada de diazepam fazer [coletas provas de ocorrências], contou a perita.

Essa é apenas uma das histórias caracterizadas como assédio por uma pesquisa realizada entre peritos da polícia científica de São Paulo. O levantamento do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), feito em maio de 2025, e obtido com exclusividade pela Agência Pública, mostrou que 60% dos respondentes disseram já terem sofrido assédio moral na instituição e outros 28% que foram vítimas de assédio sexual praticados por colegas de trabalho.

A pesquisa foi convocada pelo MPSP, após o Sindicato dos Peritos do Estado de São Paulo (Sinpcresp) identificar um volumoso número de casos que envolviam suspeitas de assédios morais e sexuais dentro da instituição. Participaram da pesquisa, de forma anônima, 574 pessoas, que responderam a um formulário com 21 perguntas. Isso representa cerca de 25% do efetivo.

Por meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP), sob gestão do delegado Nico Gonçalves, respondeu que a Superintendência da Polícia Técnico-Científica repudia qualquer conduta incompatível com os princípios que regem a administração pública. A resposta afirma ainda que, ao ser formalmente notificada pelos órgãos responsáveis sobre a pesquisa, a instituição prestou os esclarecimentos cabíveis. O fortalecimento institucional incluiu medidas como a instituição da Comissão Permanente de Enfrentamento ao Assédio Moral e Sexual, criação de um novo canal exclusivo para denúncias.

Leia aqui a nota na íntegra.

"A Superintendência da Polícia Técnico-Científica repudia qualquer conduta incompatível com os princípios que regem a Administração Pública. Ao ser formalmente notificada pelos órgãos responsáveis sobre a pesquisa, a instituição prestou os esclarecimentos cabíveis.

O fortalecimento institucional incluiu medidas como instituição da Comissão Permanente de Enfrentamento ao Assédio Moral e Sexual, criação de um novo canal exclusivo para denúncias de denúncias, divulgação do canal oficial Fala SP - que atende a todos os órgãos de Estado -, elaboração de cartilha com orientações e realização de palestra temática ministrada por integrante do Ministério Público.

As denúncias formalizadas são encaminhadas à Corregedoria da Polícia Civil, órgão competente para a apuração dos fatos e eventual responsabilização disciplinar, com observância do devido processo legal, tratamento adequado dos relatos, sigilo e instrução formal dos casos." 

Maioria deixa de denunciar por medo
Os peritos que toparam compartilhar os assédios sofridos dentro da instituição pediram que setores, nomes e a identificação de seus chefes não fossem divulgados, por uma questão de segurança. Eles [peritos] temem ter algum tipo de retaliação. Isso é evidente e é algo que eles comentam comigo de forma recorrente, explicou Bruno Lazzari, presidente do Sinpcresp.

O presidente disse que até mesmo o sindicato enfrenta dificuldades em coletar denúncias e tomar providências, pelo medo dos servidores em compartilhar detalhes e documentos. Eu atribuo [o medo] parcialmente a falta de comunicação entre a instituição e os funcionários, ou seja, falta de divulgação a respeito do que é assédio e a ausência de meios possíveis para que esses assédios sejam denunciados, disse.

Milena ingressou na Polícia Científica em 2019, em um movimento de contratação feito durante a gestão do ex-governador João Dória, na época do PSDB. Pouco depois de sair da Academia de Polícia (Acadepol), ela passou a integrar o time de peritos da Grande São Paulo.

O seu primeiro chefe na instituição, na época, foi descrito pela servidora como agressivo, ofendendo colegas de trabalho. No entanto, o receio dos servidores em denunciar o dirigente tinha uma justificativa: ele andava armado ostensivamente o tempo todo, até mesmo internamente, contou a perita, que hoje não convive mais com esse chefe.

A pesquisa feita pelo MPSP apontou que 66% dos peritos que responderam ao questionário não fizeram denúncias aos superiores ou à Corregedoria da Polícia Civil, que realiza as investigações internas da instituição. Os dados apontam, também, que os casos denunciados não costumam ter resultados: apenas 4% das ocorrências levadas às instâncias superiores surtiram efeito.

Esse contexto, segundo Lazzari, alimenta também o medo de servidores denunciarem irregularidades e sofrerem retaliações. Nas polícias, a hierarquia é muito mais rígida do que em outras instituições. Por isso, os servidores se sentem intimidados a fazer qualquer tipo de denúncia, afirmou.

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