ARTICULISTAS o bruxo é cuidadoso
Religião e dinheiro
Há religiões com outros propósitos, bem mais nobres. Estas, devem ser valorizadas. por EMILIANO JOSÉ
03/03/2026 08h48
Por: Carlos Nascimento Fonte: por EMILIANO JOSÉ

Lancei um livro recentemente, e o fiz no meu aniversário, dia 5 de fevereiro deste ano, a levar um título provocante: “O dinheiro rebaixa todos os deuses do homem”. A provocação não é minha. A frase é de Marx, dele mesmo, Karl Marx. Pretendi, com a publicação, prestar tributo a José Paulo Netto, autor de notável biografia sobre o pensador, filósofo, comunista alemão, autor capaz de desvendar os segredos do capitalismo, fazendo-o de maneira insuperável até os dias atuais.

Gostar ou não dele, é de cada um. Ignorá-lo, impossível. Quiser compreender a teoria marxista, não deixe de ler “Karl Marx: uma biografia”, meticulosa pesquisa de Paulo Netto, escrita de forma admirável, editada pela Boitempo.

A leitura contribui para um conhecimento profundo de Marx, e eu, com meu livro de pouco mais de 250 páginas, apenas registrei aqueles aspectos capazes de me tocar, de suscitar lembranças de leituras apressadas sobre o marxismo, e de compreender o quanto ainda tenho de caminhar para assimilar o gigantesco legado daquele judeu, bruxo capaz de penetrar os mistérios do capital como ninguém o fez até hoje. Paro, nos limites desse artigo, no significado da frase de Marx sobre o dinheiro, ligeiramente.

Marx retira dos judeus a maldição de serem os únicos a adorar o “deus dinheiro”. Essa adoração se dá sob o capitalismo, é adoração mundial, poderoso deus. A partir disso, a crítica dele à religião. Nada de simplificar com “a religião é o ópio do povo”. O Estado e a sociedade produzem a religião, para ele consciência invertida do mundo. Mas, o bruxo é cuidadoso: “a miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real”. Perceberam a profundidade disso? Ressalto isso, mas está tudo desenvolvido no livro de Paulo Netto.

Marx vai mais fundo ainda: “A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma”. Suspiro da criatura oprimida. Ânimo de um mundo sem coração. Alma de situações sem alma. Só então, a partir dessa visão, ele concluirá ser a religião o ópio do povo. Percebe a religião como revelação da miséria das gentes, revolta contra a miséria, um grito da criatura sob opressão.

Não, ele, no entanto, não se envolvia com a crença mítica em um Deus. Defendia a abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens, e a partir disso, aconteceria a felicidade real deles. Ao menos, para mim, abolição de religiões capazes de infundir sentimentos ilusórios de felicidade, da entrega dos pequenos ganhos de cada um dos fiéis a pastores acostumados a adorar verdadeiramente apenas e tão-somente ao deus dinheiro, a rebaixar todos os deuses do homem.

Há religiões com outros propósitos, bem mais nobres. Estas, devem ser valorizadas. Porque parte do! esforço para a construção de uma sociedade fraterna, avessa à desigualdade, voltada à distribuição do pão para todos.

Emiliano José
Jornalista e escritor
emiljose@uol.com.br

(*) Publicado no Jornal A Tarde, (Espaço do Leitor), edição de 02.03.2026

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