ARTICULISTAS “General prussiano”
Penetra na festa
Ao se incluir no batalhão dos trabalhadores informais, Bruno Reis não mudou em nada os parâmetros da velha política. por Helington Rangel (Professor universitário, economista, jornalista)
27/02/2026 11h46
Por: Carlos Nascimento Fonte: por Helington Rangel (Professor universitário, economista, jornalista)

Enquanto os trios-elétricos agitavam os circuitos do Rei Momo, uma notícia passava despercebida: o Guinness World Records havia registrado Salvador com a maior coleta de materiais recicláveis no Carnaval de 2026. “Nós somos os donos dessa conquista incrível: foram 46 toneladas de latinhas de alumínio coletadas” – bradou o Prefeito Bruno Reis como um general prussiano, empunhando sua espada, depois da conquista nos campos de batalha, século XIX.

Na realidade, os autênticos proprietários da proeza são os catadores de material reciclável, integrantes da lista de outros trabalhadores informais, cada um com perfis específicos: vendedores de porta em porta, ambulantes, camelôs, autônomos, motorista de aplicativo e feirantes, mas todos sem carteira assinada, direitos trabalhistas garantidos em lei, auxílios de seguridade social, como o auxílio-maternidade, auxílio-doença, atividades laborais sem regulamentação pelo Estado.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em auxílio com a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio, os dados dos informais estão divididos em duas categorias: os que trabalham por conta própria e os que não possuem carteira assinada pelo empregador.

A origem do trabalho informal é diversificada, porém, realidade cada vez mais presente nas metrópoles, sobretudo dos países emergentes. O desemprego estrutural vem à tona com a introdução de novas tecnologias numa das etapas do processo de substituição. Já o desemprego conjuntural aflui nas turbulências do sistema econômico. Quando a máquina produtiva retorna ao seu ritmo natural, há tendência de nova oferta de empregos.

Um dos fatores sociais pode ser pincado da informalidade: indivíduos não conseguem nível de escolaridade satisfatório para concorrer ao emprego formal. Em paralelo, há outro fenômeno dramático: multidões que abandonam sua terra à procura de regiões desenvolvidas para melhorar sua qualidade de vida. Entretanto, ao pisar no solo estranho não possuem qualificação exigida ou são vítimas de preconceito, mergulhando na informalidade como derradeira alternativa. Apesar de geração de renda ser quase imediata oriunda das vendas, a flutuação no rendimento líquido projeta incerteza no consumo familiar de amanhã.

Ao se incluir no batalhão dos trabalhadores informais, Bruno Reis não mudou em nada os parâmetros da velha política: seu discurso apresentou boas doses de oportunismo eleitoral, pois nem nos seus milionários e desfigurados viadutos há espaço para os catadores de latinhas marcharem carregando o resultado do seu trabalho diuturno.

Na verdade, ele nunca levantou a voz em favor dos trabalhadores de Salvador sem proteção ou amparo da lei, talvez pela força da herança colonial.

Contato: helingtonr@gmail.com

(*) Publicado no Jornal A Tarde, edição de 27.02.2026

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