Tem sido cada vez mais comum o tema religioso gerar polêmica no Carnaval. À parte o comum de Escolas de Samba homenagearem elementos da cultura afro-brasileira, o inusitado é o alarido que isso tem provocado. Em 2022 a “Acadêmicos do Grande Rio” venceu o desfile carioca com o tema “Fala, Majeté! As Sete chaves de Exu”, provocando a ira de setores protestantes. Dois anos depois foi Baby do Brasil, que deixando de lado seu brilho como uma das pioneiras do Carnaval baiano, falou em “arrebatamento” e “apocalipse” em plena avenida. Por último, a polêmica gira em torno da “Acadêmicos de Niterói”, que levou à avenida uma homenagem ao presidente Lula, incluindo uma ala representando enlatados, chamada “Neoconservadores em conserva”. Foi a deixa para reacionários atacarem a Escola de Samba e os setores progressistas.
Não é de hoje que o segmento evangélico é ator importante na vida política do país. Apesar da desaceleração no crescimento, estima-se que dentro de 10 ou 20 anos os evangélicos venham a se tornar majoritários no Brasil, superando os católicos, que até há algumas décadas pareciam imbatíveis. Por conta disso, não é incomum encontrarmos na teledramaturgia, na música e até mesmo no Carnaval personagens e indivíduos que compõem o universo dos “crentes” brasileiros, em sua pluralidade e variadas denominações.
Se os evangélicos passam a ser cada vez mais visíveis na cultura, na medida em que ocupam espaço na sociedade, é na política, entretanto, que parecem ser mais barulhentos. No Congresso esse setor forma a bancada da “Bíblia”, que junto com as bancadas do “Boi” e da “Bala” performam o que de mais reacionário existe no parlamento. Obviamente que não se deve tomar os “evangélicos” como homogêneos, pois há muita diferença entre pastores-deputados como Henrique Vieira (PSOL-RJ) e Marco Feliciano (PL-SP), de modo que há diversos evangélicos que são progressistas. Não obstante, é impossível ignorar que parte expressiva desses cristãos foram capturados por ideologias extremistas na lógica do dominionismo, uma teologia cada vez mais influente entre os evangélicos brasileiros, como bem o demonstra o documentário “Apocalipse nos Trópicos” (2025), de Petra Costa”.
Frente a esse fato, aqueles que não são evangélicos sentem-se cada vez mais desconfortáveis em uma sociedade em que a justa voz a quem precisa ser representado, se reveste de ofensiva proselitista sobre os costumes e o comportamento alheio. Com efeito, não se pode ir às compras, transitar em transporte público ou estar em uma sala de espera de uma clínica sem ser obrigado a assistir pregação ou escutar canções de louvor.
Evangélicos, como católicos, candomblecistas, espiritas e ateus, merecem respeito e é a existência do Estado laico que assegura que todos possam existir e professar livremente sua fé ou a falta dela. Nesse terreno qualquer excesso pode significar violência e cerceamento.
*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.
Contato: zacasenajr@uol.com.br
(*) COLUNA DO AUTOR:
Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 20.02.2026.
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