O Carnaval de Salvador é anunciado como a maior festa do planeta. E não é exagero. Milhões de pessoas ocupam os circuitos, trios elétricos atravessam avenidas históricas, artistas comandam multidões e a cidade se transforma num palco a céu aberto. É música sem pausa, é turismo em alta, é vitrine internacional.
Nos camarotes, a experiência é outra. Estruturas imponentes, bares sofisticados, bufês variados, espaços climatizados, salões de beleza, áreas de descanso e mirantes privilegiados para assistir aos trios. Ali, a festa ganha contornos de exclusividade. É conforto, é status, é espetáculo com vista panorâmica.
Paralelamente, o poder público monta uma verdadeira operação de guerra para garantir que tudo funcione. A Secretaria de Segurança Pública mobiliza milhares de policiais militares, civis e técnicos, além do Corpo de Bombeiros e do Departamento de Polícia Técnica. Há monitoramento por câmeras, portais de abordagem, revistas, delegacias móveis, postos de atendimento, centrais de flagrantes funcionando em regime especial.
A Prefeitura também entra em campo com estrutura robusta. Equipes de limpeza trabalham dia e noite para dar conta do volume de resíduos. A saúde reforça plantões, instala módulos assistenciais nos circuitos, ambulâncias ficam de prontidão. A Transalvador reorganiza o trânsito, a Guarda Municipal atua na proteção de equipamentos e apoio às ações preventivas. É uma engrenagem complexa, planejada para manter a cidade operando mesmo sob pressão máxima.
Mas, enquanto essa grande máquina pública e privada movimenta a festa, há outro lado que raramente ganha destaque. O dos ambulantes que percorrem quilômetros com isopores nas costas. O dos barraqueiros que improvisam camas com mesas e lonas. O dos puxadores de corda que seguram, literalmente, o limite entre o bloco pago e a multidão. O dos catadores de latinha que varrem o chão atrás de cada trio, transformando descarte em sustento.
Muitos passam a semana inteira praticamente na rua. Dormem no chão, debaixo de barracas desmontadas, protegidos apenas por plásticos e guarda-sóis fechados. Acordam cedo para garantir ponto. Trabalham até a exaustão. Para eles, o Carnaval é oportunidade. É quando conseguem faturar o que talvez não ganhem em meses. Mas o custo físico e emocional é alto.
O contraste é inevitável. Dentro dos camarotes, conforto e serviço personalizado. Do lado de fora, suor e improviso. A mesma música que embala brindes em copos estilizados acompanha quem conta moedas para fechar o dia no azul. A mesma estrutura de segurança que protege foliões também organiza fluxos que, muitas vezes, apertam ainda mais quem depende daquele espaço para sobreviver.
O Carnaval de Salvador é potência cultural e econômica. Gera empregos, movimenta bilhões, projeta a cidade para o mundo. Conta com planejamento de segurança, reforço na saúde, logística urbana e uma cadeia produtiva ampla. Mas também revela desigualdades profundas. A festa que celebra a alegria coletiva é sustentada por trabalhadores invisíveis, que fazem tudo acontecer enquanto descansam no próprio chão da avenida.
No fim, a maior festa do planeta é feita de luzes e sombras. Entre o trio e o chão, há um retrato fiel da cidade. O brilho impressiona, a organização é grandiosa, mas a realidade de quem segura essa estrutura com o próprio corpo não pode ser ignorada. A festa acaba na Quarta-feira de Cinzas. Para muitos, o desafio recomeça no dia seguinte.
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