Na noite do dia 3 de abril de 2018, o general Villas Bôas, então comandante do Exército, escreveu no Twitter: “Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais?”
Em seguida, acrescentou: “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”.
Passava das 21h da véspera do julgamento do Habeas Corpus do ex-presidente Lula pelo STF, ficando evidente que se tratava um recado direto à mais alta corte do país. Atento ao efeito do tuíte, o âncora do Jornal Nacional William Bonner, antes de encerrar o noticiário, leu a mensagem, inaugurando a nova intervenção direta das Forças Armadas na política brasileira.
Passados quase oito anos do fatídico dia, após o desastroso governo militar do ex-capitão Jair Bolsonaro, o Brasil tem diante de si o inédito fato de três generais e um almirante, junto com o chefe da organização criminosa, em vias de terem a patente cassada. Em que pesem as atuais condições de acintoso conforto proporcionadas à Bolsonaro e seus acólitos, presos por tentativa de golpe, e da igualmente acintosa possibilidade de suas mulheres continuarem recebendo o polpudo soldo em forma de pensão devido ao escárnio jurídico chamado “morte ficta”, há que se comemorar o pedido encaminhado pelo Ministério Público Militar ao STM.
Em 16 de junho de 1988, por 9 votos a 4, os ministros do STM absolveram Bolsonaro por um plano de explodir bombas em quartéis e no sistema de abastecimento de água da adutora do rio Guandu. O plano fora denunciado em reportagem da revista Veja, mesmo veículo em que, em 1986, o capitão do Exército havia publicado artigo pedindo aumento de soldo, o que lhe rendera 15 dias de prisão.
Aproveitando-se da publicidade, Bolsonaro escalou na política. Eleito vereador ainda em 1988, tornou-se, em seguida, deputado federal, desperdiçando 28 anos de recursos públicos como um dos maiores inúteis do Congresso. O momento seguinte do estrelato do militar insubordinado é tristemente conhecido de todos os brasileiros, que amargaram quatro anos de dificuldades, em meio à pandemia e ao negacionismo, escapando por pouco de uma ditadura.
Em novembro de 1970 uma foto tirada em sessão de um tribunal trazia uma jovem de 22 anos abatida, porém altiva, diante de algozes que escondiam a face. A jovem era Dilma Rousseff e os homens que escondiam o rosto eram ministros do STM, que entraram para a história pela porta dos fundos. Nas próximas semanas o STM tem mais uma vez a chance de entrar para a história.
O que se espera é que os ministros o façam com honra, cassando as patentes dos militares golpistas.
Errata: No artigo digo que a foto de Dilma tirada em 1970 retrata, ao fundo, ministros do STM que, envergonhados, põem a mão na frente do rosto. No entanto, a foto em questão é de uma auditoria na Ilha das Flores. Os militares que cobrem o rosto não são, portanto, ministros do STM, mas oficiais de um tribunal militar.
*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.
Contato: zacasenajr@uol.com.br
Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 06.02.2023.
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