O Brasil vive um momento que lembra uma inversão profunda de valores. Em muitos aspectos, parece que o absurdo se normalizou. O clima é de tensão permanente, com uma sociedade dividida, intolerante e cada vez mais distante de referências básicas de convivência. O que se vê hoje não é apenas crise política ou econômica, é uma crise de princípios.
Recentemente, dois turistas, empresários do Mato Grosso do Sul, foram espancados de forma brutal em Porto de Galinhas, Pernambuco. Um episódio motivado por algo banal, mas que escancara um problema maior: a violência como resposta imediata e a incapacidade de lidar com o outro. Não é um fato isolado. É resultado de um processo contínuo de deseducação social, da perda do respeito às regras mínimas de convivência.
No final do ano, estive em Porto Alegre para o feriado de Ano Novo e caminhei pelo centro histórico. O cenário era duro: moradores de rua, dependentes químicos, pessoas completamente excluídas. A mesma realidade se repete em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e tantas outras grandes cidades. O Brasil que aparece na televisão, colorido e otimista, não é o mesmo que se vê, em tons de cinza, nas calçadas.
Uma cena específica me marcou. Um jovem de cerca de vinte anos caminhava com quem pareciam ser seus pais. Usava um vestido azul, roupa feminina, em contraste com sua aparência física. Para mim, soou estranho. Para os pais, parecia absolutamente normal. Fiquei pensando se eu estava deslocado do meu tempo ou se o tempo é que havia se deslocado de mim. Não cheguei a uma resposta. A situação apenas evidenciou o quanto é difícil se afastar dos valores e dogmas que nos acompanham desde a formação pessoal. O conflito entre o que se entende como certo ou errado acontece internamente, sem necessidade de julgamento. O senso crítico é íntimo, subjetivo e inevitável.
Em outro momento do passeio, presenciei um homem de cerca de quarenta anos tentando convencer os pais a lhe dar dinheiro para comprar um sanduíche no McDonald’s. Pode parecer irrelevante, mas é simbólico. Dependência, imaturidade e inversão de papéis também fazem parte desse cenário confuso.
São cenas simples, quase banais, mas que juntas ajudam a explicar por que tantos brasileiros sentem que algo saiu do lugar. É esse mundo, cada vez mais desconectado de limites e responsabilidades, que faz muita gente se perguntar até onde tudo isso vai.
Luiz Ferreira: um analista de Porto Alegre
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