Quem viveu o futebol de rua sabe que ele tinha regras próprias, criadas no calor do jogo e respeitadas por todos, mesmo sem juiz, apito ou regulamento oficial. Eram normas simples, às vezes duras, mas que faziam sentido naquele universo improvisado.
Os dois melhores nunca podiam jogar juntos. Para equilibrar, decidiam no par ou ímpar quem começava escolhendo o time. Ser o último a ser escolhido era motivo de vergonha e ficava marcado por muito tempo. Um time jogava sem camisa, o outro com camisa, e assim todos se entendiam em campo.
O pior jogador quase sempre ia para o gol, a menos que alguém gostasse de agarrar. Quando ninguém queria, resolvia-se no rodízio, cada um no gol até levar um frango. Em pênalti, o goleiro ruim saía e entrava o melhor só para tentar defender. Os menos habilidosos ficavam na zaga, enquanto o dono da bola tinha um privilégio inquestionável: jogava sempre no time do melhor.
Não havia juiz. As faltas eram marcadas no grito. Quem apanhava exagerava na dor para garantir a infração. Bola na lateral ou no escanteio era sempre “nossa” para quem gritasse mais alto e chegasse primeiro. Lesões eram parte do jogo: joelho ralado, dedão estourado, nariz sangrando. Para tudo isso, existia o Merthiolate, que ardia mais do que o machucado.
Quem chutava a bola longe era responsável por buscá-la. Lances polêmicos se resolviam na discussão ou, em último caso, na pancada. O jogo acabava quando todos estavam exaustos, quando anoitecia, quando a mãe do dono da bola chamava ou quando a vizinha prendia a bola no quintal ou simplesmente a furava.
Mesmo com placar elástico, o jogo só terminava no “quem faz, ganha”. Rua de baixo contra rua de cima valia garrafa de Coca-Cola. Chovesse ou fizesse sol, sempre tinha futebol. O grito de “parou” surgia quando passava carro, uma mulher grávida ou alguém com criança. Marca esportiva não existia: era Kichute, pé no chão ou chuteira velha. Goleiro não usava luva, usava chinelo Havaianas nas mãos.
Essas regras não escritas da pelada de antigamente dizem muito mais do que parece à primeira vista. Elas revelam uma época em que o futebol era, antes de tudo, convivência, improviso e aprendizado coletivo. Não havia luxo, não havia tecnologia, não havia marketing. Havia gente, rua, terra batida, bola surrada e vontade de jogar até o último fôlego.
A pelada ensinava respeito, negociação, limites e até justiça do jeito mais simples possível. No grito, no acordo, às vezes na discussão, mas quase sempre terminava em risada e amizade renovada. Cada jogo era uma escola informal de vida, onde se aprendia a perder, a ganhar, a dividir, a esperar a vez e a lidar com frustrações sem manual ou tutorial.
Hoje, muita coisa mudou. As ruas já não são as mesmas, o tempo ficou mais curto e a infância ganhou outras telas. Ainda assim, quem viveu esse tempo carrega uma memória afetiva que não se apaga. Porque não era só futebol. Era pertencimento, liberdade e formação de caráter.
Por isso, quando alguém lembra dessas regras e sorri, não é nostalgia vazia. É a certeza de ter vivido algo simples, intenso e verdadeiro. E isso, definitivamente, não volta mais. Só permanece em quem teve o privilégio de jogar essa partida.