ARTICULISTAS Volta, João!
Volta, João!
Entre crises políticas e ataques à democracia, a UFBA encontra em João um farol de equilíbrio. Por Carlos Zacarias de Sena Júnior
14/11/2025 11h02
Por: Carlos Nascimento Fonte: Carlos Zacarias de Sena Júnior (Doutor em História, professor da UFBA)

Cheguei para lecionar no curso de História da UFBA em 2010, João Carlos Salles era diretor da FFCH. Professor de Filosofia, João, como é conhecido, estava no segundo ano de sua gestão e preparava o Congresso de São Lázaro, celebração dos 70 anos da Faculdade.

João deixou a direção da FFCH com muito respeito. Foi eleito para assumir a reitoria da UFBA em 2014, ano da reeleição de Dilma. Passado o pleito presidencial, em 2015, em meio à austeridade fiscal, os docentes das IFs fizeram a maior greve do século. Terminada a paralisação, a movimentação golpista contra Dilma, em meio à histeria lavajatista, se agudizou. Milhares de pessoas ocupavam as ruas, engrossando o coro do golpe, ou tentando impedi-lo. A UFBA, dirigida por João, não se furtou a discutir a crise da democracia em seminários que encheram o Salão Nobre da Reitoria e movimentaram a cidade.

Dois anos após o golpe do impeachment, sob o governo Temer, com Lula preso e a extrema direita se credenciando para disputar o governo, tempos ainda mais sombrios se anunciavam. Na ocasião, eu e um grupo de professores organizamos a disciplina "O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil", que motivou uma ação na justiça patrocinada por um vereador que tentava impedir o oferecimento do componente na UFBA.
A disciplina foi oferecida e teve suas aulas transmitidas ao vivo. Na abertura do semestre, divididos entre o auditório e o Pátio do Pavilhão Raul Seixas na FFCH, 400 pessoas se aglomeravam para ver a universidade afirmar sua autonomia após a derrubada da liminar pedida pelo edil extremista. Dirigindo os trabalhos, ao lado da professora Graça Druck, que coordenou o componente na modalidade extensionista, distribuí a palavra para representantes de mais de uma dezena de movimentos sociais, além do reitor João Salles, que mais uma vez se colocou ao lado da comunidade acadêmica na intransigente defesa da universidade.

Com a eleição de Bolsonaro, após o desastrado Vélez Rodriguez, o obscuro Abraham Weintraub foi indicado para chefiar a Educação. João, que havia sido vice-diretor da ANDIFES, foi escolhido para presidir a Associação em 2019, sendo personagem fundamental para derrotar o malfadado "Future-se".

João deixou a reitoria em 2022, nos estertores do governo Bolsonaro, como se sua principal missão tivesse sido defen der a universidade frente ao mais grave ataque desde a sua fundação. Passados
quatro anos, após um pós-doutorado nos Estados Unidos e um Prêmio Jabuti, João aceitou a tarefa de, novamente, ser candidato a reitor da UFBA. Na última terça, centenas de pessoas se reuniram na Faculdade de Arquitetura para se somarem ao projeto de sua recondução à Reitoria. Em meio a discursos, a certa altura, gritaram "volta, João".

Não sabemos o que o futuro nos reserva, mas estamos certos de que a UFBA estará bem representada e será defendida, com João Carlos Salles como reitor.

*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.

Contato: zacasenajr@uol.com.br

Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 14.11.2025.

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