A IPC aposentada Fátima Umbelino relembra seus primeiros anos na Polícia Civil da Bahia e faz um paralelo entre a formação dos anos 1980 e a realidade atual dos novos agentes.
“Quando entrei na Polícia Civil da Bahia, em 1982, existia uma espécie de ritual para receber os novatos. Não era maltrato, era o início da verdadeira formação.” Assim começa o relato da IPC aposentada Fátima Umbelino, que recorda os tempos em que o aprendizado vinha, principalmente, da convivência com os mais experientes.
Ela lembra do primeiro conselho que recebeu: “Minha jovem, tu tá entrando agora, o melhor caminho é não se precipitar. Dá um passo de cada vez.” E foi assim que viveu seus três anos de estágio probatório. O que a academia não ensinava, aprendia-se na prática, com os mais velhos, observando o cotidiano e absorvendo cada orientação.
“Depois disso, passei a sentar no banco da frente, respondendo o QTU para a Central de Polícia, onde havia equipes preparadas para atender os colegas que estavam em diligências.” Foi nesse ambiente de cooperação e disciplina que Fátima consolidou o aprendizado que a acompanharia por toda a carreira.
Todos esses ensinamentos voltaram à memória quando ela soube do trágico acidente em Itaberaba, envolvendo policiais que conduziam presos para outra comarca. “Eram todos recém-chegados. Morreram todos, só sobreviveram os que estavam sendo conduzidos. O último a falecer não tinha sequer um ano de instituição; os outros não completavam três, como determinava o estatuto.”
Hoje, aos 70 anos e já aposentada, Fátima Umbelino continua ativa na militância dos movimentos populares e sindicais. Ela integra um grupo de policiais civis aposentados no WhatsApp, criado para reivindicar direitos iguais aos dos servidores da ativa, especialmente paridade e integralidade. Fátima é uma das vozes mais firmes do grupo, que surgiu em resposta ao tratamento diferenciado entre ativos e inativos praticado pelo sindicato da categoria.
Crítica ao cenário atual, Fátima não poupa palavras ao avaliar a postura do governo com os servidores da segurança pública. Para ela, “o governo trata a categoria com descaso e age como um verdadeiro carrasco dos servidores estaduais, especialmente dos profissionais da segurança pública”.
Comparando com os dias atuais, Fátima observa uma mudança profunda no perfil dos novos policiais: “Hoje o servidor já sai da academia com armamento, chefia, gratificações, poder de escolha e talvez até ticket-refeição. Estão andando na frente dos bois, e ainda não deu tempo de exigirem seguro de vida.”
Com olhar crítico e nostálgico, Fátima Umbelino reflete sobre o quanto a experiência e a convivência eram os verdadeiros pilares da formação policial. Nos anos 1980, lembra ela, na própria Acadepol, os alunos eram muitas vezes “orientados” a não se aproximar dos policiais antigos — como se a vivência de rua e o aprendizado prático fossem algo ultrapassado. Ainda assim, foi justamente com esses veteranos que os novatos aprenderam o valor da prudência, da lealdade e do trabalho coletivo.
Hoje, mesmo longe das ruas, Fátima segue lutando com o mesmo espírito de quando vestia o colete. Sua voz ressoa entre os colegas aposentados como símbolo de resistência e compromisso com a categoria. Para ela, ser policial é mais do que exercer uma função: é carregar uma história feita de coragem, aprendizado e luta — dentro e fora da instituição.
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