ARTICULISTAS PAÍS DE ESQUECIDOS
Passa da hora de rever a Lei da Anistia
A presidenta do STM, Maria Elizabeth Rocha — única mulher a integrar o STM em toda a sua história — pediu perdão, em ato ecumênico no sábado (25), pelos erros da Justiça Militar durante a ditadura, reconhecendo decisões que favoreceram o regime e prejudicaram a democracia. por Carlos Zacarias de Sena Júnior
04/11/2025 08h01 Atualizada há 3 meses
Por: Carlos Nascimento Fonte: por Carlos Zacarias de Sena Júnior

No sábado, 25, Maria Elizabeth Rocha, presidenta do Superior Tribunal Militar, única mulher entre 345 ministros que passaram pelo STM, subiu ao púlpito de um ato ecumênico e se reportou aos familiares das vítimas da ditadura e aos perseguidos políticos pedindo “perdão à sociedade brasileira e à história do país pelos equívocos judiciários cometidos pela Justiça Militar Federal em detrimento da Democracia e favoráveis ao regime autoritário”. Foi aplaudida de pé pelas milhares de pessoas que acompanhavam o ato em memória do jornalista Vladimir Herzog, assassinado sob tortura nas dependências do DOI-CODI paulista em 1975.

O evento ocorreu na Catedral da Sé, a mesma que há 50 anos reuniu o arcebispo D. Paulo Evaristo Arns, o pastor presbiteriano Jamie Wright e o rabino Henry Sobel, diante de oito mil pessoas que desafiavam a ditadura. Na versão oficial, Herzog havia se suicidado, farsa desmontada pela foto que registrou o jornalista enforcado, com os pés no chão. Na cerimônia de 2025, os religiosos foram representados por D. Odilo Scherer, pela pastora e filha de Jamie, Anita Wright, e pelo rabino Uri Lam, conhecido dos baianos.

Representando o presidente Lula, Geraldo Alckmin afirmou o compromisso do governo “em defesa da verdade, da justiça e da democracia”, compromisso que se revelou quando da recriação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, em julho de 2024. A importante medida, entretanto, tem-se mostrado insuficiente frente à reivindicação dos familiares de mortos e desaparecidos, que anseiam pela revisão da Lei da Anistia, tema que se encontra nas mãos do ministro Dias Toffoli.

Há 61 anos o Brasil viveu um golpe que instaurou uma ditadura que durou 21 anos. Em 1979, sob pressão dos militares que ainda governavam, o Congresso aprovou uma Anistia que assegurou impunidade aos criminosos do regime. A luta dos perseguidos políticos e familiares de vítimas da ditadura converteu-se, então, numa incessante busca por informações sobre as pessoas desaparecidas e pela revisão da Lei 6.683.

Discursando no ato de 2025 ao lado do irmão André e diante de familiares, Ivo Herzog, filho de Vlado, afirmou ter aprendido “que essa luta não era particular, da nossa família” e “que a luta era da nossa gente”, buscando estender o compromisso com a memória, verdade e justiça para todos os brasileiros.

Entre autoridades, entidades da sociedade civil e personagens da luta contra a ditadura, o público presente se vestiu de branco, levou flores e gritou “sem anistia”, enquanto o coral cantou “O bêbado e o equilibrista”.

Após o evento, Maria Elizabeth Rocha falou a jornalistas arguindo pela inconstitucionalidade da Lei da Anistia. Afirmando que o perdão que foi concedido não gera esquecimento, a ministra abriu um rasgo de esperança em famílias que lutam há mais de meio século por justiça e por um tantinho de memória para esse país de esquecidos.

*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.

Contato: zacasenajr@uol.com.br

Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 31.10.2025.

 
 
 
 
 
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Uma publicação compartilhada por Matheus Leitão (@mleitaonetto)

 

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