A entrevista concedida pelo ex-delegado-geral da Polícia Civil da Bahia, Bernardino Brito Filho, ao jornal Correio da Bahia, trouxe à tona um tema delicado: a ausência de proteção para autoridades que, mesmo após décadas de serviço, continuam sendo alvo do crime organizado. Bernardino relatou que chegou a ser ameaçado por um chefe do tráfico quando estava no comando da PC, e confessou sentir-se vulnerável desde que deixou a chefia da instituição.
O episódio ganha ainda mais destaque com o assassinato recente do ex-Delegado-Geral de São Paulo, Ruy Ferraz, executado a mando de facção criminosa. O caso acendeu um alerta nacional sobre a exposição de autoridades policiais após deixarem o cargo.
No entanto, o comentário feito nas redes sociais pelo Investigador de Polícia Luiz Ferreira amplia a discussão. Para ele, a insegurança não se limita à alta cúpula, mas atinge igualmente todos os servidores da segurança pública.
“O tema da matéria foi excelente, todavia a abrangência que sugere o tema sequer foi tocada. A bala que mata um delegado chefe, mata também um investigador de polícia, um escrivão, um soldado, um coronel... A criminalidade age indiscriminadamente, a diferença é a exposição e a vulnerabilidade, a qual se encontram os policiais, por assim dizer, da baixa casta”, escreveu.
Ferreira também criticou a política salarial e a falta de garantias para policiais aposentados, que chegam a ser obrigados a devolver a arma de serviço quando deixam a ativa. Segundo ele, muitos ex-servidores vivem em bairros periféricos, próximos aos mesmos criminosos que um dia combateram, agora sem proteção e com remuneração considerada insuficiente.
“É justo um investigador ou escrivão de polícia se aposentar com salários em torno de R$ 9 mil, enquanto delegados chegam a R$ 35 mil? Todas as vidas interessam, não é só de delegado chefe”, desabafou.
O caso exposto por Bernardino Brito Filho e a tragédia envolvendo Ruy Ferraz reforçam a vulnerabilidade dos gestores da segurança pública frente ao crime organizado. Mas o alerta do investigador Luiz Ferreira revela uma realidade ainda mais dura: a falta de proteção, de valorização e de condições dignas afeta todo o corpo policial. A violência não distingue patentes, e a sociedade também corre riscos quando aqueles que a protegem se veem desarmados, desamparados e esquecidos pelo Estado.
Confira comentário em áudio do articulista ASSIS CASTRO:
Íntegra da entrevista do ex Delegado Geral da Polícia Civil da Bahia, DPC Bernardino Brito ao Jornal Correio da Bhia, edição de 24 de setembro de 2025 (por Bruno Wendel)
O delegado Bernardino Brito Filho dedicou 35 anos à polícia baiana. Hoje aposentado, passou por várias delegacias no interior, foi diretor de departamento, delegado geral-adjunto, até chegar ao cargo mais importante da corporação: em 2015, ele foi nomeado delegado-geral da Polícia Civil da Bahia (PCBA). No entanto, o fato de ele, na ocasião, ocupar o topo da cúpula da PC, não intimidou o crime organizado. “Fui ameaçado por um chefe do tráfico”, revela Bernardino com exclusividade ao CORREIO.
Bernardino e outro ex-delegado geral relataram ao CORREIO a sensação de vulnerabilidade em que se encontram após deixarem o cargo de gestor da PCBA, pois não têm escoltas. Durante a entrevista, ele lamentou o assassinato do ex-delegado-geral de São Paulo Ruy Ferraz, no último dia 15. “Era um gestor muito ativo, inteligente. Fomos contemporâneos. Chegou a vir à Bahia num encontro de delegados-gerais. Chegamos a fazer curso de especialização juntos”, declara Brito.
Ruy foi perseguido e executado por encapuzados. Ele não tinha escolta e fora ameaçado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) após transferir lideranças para presídio federal. Ao comentar a trágica morte do colega, Bernardino lembrou que, quando delegado-geral, também foi intimidado pelo crime organizado. “O chefe de uma facção criminosa, que a gente conseguiu prender 11, mandou o filho dar o recado”, revela o ex-gestor, sem dar mais detalhes sobre o teor da ameaça, mas garantiu que na ocasião as forças de segurança não recuaram.
Aposentado, Bernardino recusou novos trabalhos. “Fui requisitado pela gestão privada e para ser secretário de administração e de defesa social, mas preferi não. Optei por descansar. Foram 35 anos de polícia. Ainda recebo convites, mas não quero”, diz ele, que também declinou propostas na política. Fora da instituição, Ruy ocupava o cargo de secretário de administração na cidade paulistana de Praia Grande, quando foi seguido e morto.
Indignação
Para o ex-delegado-geral da PC, o assassinato de Ruy foi mais que uma “covardia”. “Aquilo (execução) foi uma demonstração de vingança, um recado para o Estado. Não podemos deixar crescer um estado paralelo. A vulnerabilidade é grande”, declara Brito, que não tem escolta policial. “Oficialmente, não temos nenhuma proteção, mas sempre que preciso, as instituições têm me proporcionado um suporte”, pontua.
Um outro ex-dirigente da PCBA, que também relatou a ausência de proteção, comentou o assassinato em São Paulo. “É uma ousadia do tráfico se colocar superior às instituições policiais. É preciso trabalhar no endurecimento, inclusive das ações, para que a sociedade tenha tranquilidade, porque esses acontecimentos vêm de hierarquia e existe um setor específico só para isso", conclui.
Posicionamento
A reportagem perguntou à Polícia Civil (PCBA), à Secretaria de Segurança Pública (SSPBA) e o Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado da Bahia (Adpeb) o que têm a dizer sobre a vulnerabilidade de ex-delegados-gerais. Até o momento, não há respostas. O espaço segue aberto.
(*) Ex-Delegado-Geral da Polícia Civil de SP é assassinado no litoral paulista
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